João Saldanha entende de Niemeyer

Em coreografia recente, Extra Corpo, artista mostra que sabe usar a arquitetura de forma consistente, elegante e inteligente

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

02 Outubro 2007 | 00h00

A mais recente criação de João Saldanha para sua companhia, Extra-Corpo, apresentada no Sesc Santana, partiu da relação da dança com a arquitetura de Oscar Niemeyer. Indo, felizmente, em uma direção inteiramente distinta da que tomou o belga Fréderic Flammand, que se celebrizou por obras que fazem de arquitetos famosos e premiados os seus temas, não tratou a arquitetura como um cenário a ser povoado pela dança. Seu maior mérito está mesmo na clareza e na consistência da sua concepção, na qual é o espaço que reina, um espaço que não é tratado como lugar a ser mobiliado pela dança, e que se torna curvo para abrigar o tempo. E faz tudo isso de maneira simples, concisa. Extra Corpo merecia ter como aposto ''''Extrema Elegância''''. Os bailarinos vão rabiscando o espaço com seus movimentos, e o que se vê lembra os famosos desenhos de Niemeyer. Todavia, não se trata nem de cópia, nem de inspiração. Mais parece que o movimento desenha as idéias arquitetônicas que tomaram aquela forma no traçado de Niemeyer no papel - o que faz uma enorme diferença, pois nada tem a ver com o uso da mimetização como um recurso. Em vez disso - que teria sido um caminho superficial - o que se vê é um entendimento sofisticado das questões que Niemeyer priorizou e que podem ser compactadas em duas entre outras formulações possíveis: a da arquitetura não utilitária e a da curva livre. ''''Das curvas é feito todo o Universo, o Universo curvo de Einstein'''', escreveu Niemeyer. A dança de João Saldanha não se presta para entreter. No palco nu - uma metáfora para o concreto duro que Niemeyer queria barroquizar -, os bailarinos riscam seqüências-hai kais. Quase todas bem sintéticas, entremeadas por dois trios que explicitam um jeito de frase coreográfica. O que mais chama a atenção em Extra Corpo é a ''''soltura'''' dos movimentos em relação ao peso. Como se, de alguma forma, conseguissem acontecer em um corpo comandado pela gravidade e, ao mesmo tempo, os movimentos conseguissem dela se despreender, ficando mais no ar do que no próprio corpo que os faz. Há algo que inquieta o olhar que acompanha o trabalho de João Saldanha. Os movimentos parecem ser feitos para serem entregues de um bailarino para o outro. É uma atitude diferente, que desloca o corpo do papel de intérprete para o de ignição em um processo que inclui os outros. Os cinco bailarinos parecem engajados nessa proposta e dela dão cabo, cada qual de um modo seu. Marcelo Braga e Laura S?my demonstram mais naturalidade nesse fazer, e Carol Pires, Clarice Silva e Flávia Meireles agregam dinâmicas que enriquecem as texturas da espacialidade que vai surgindo. Interessante também é que a questão masculino/feminino não aparece no relacionamento que se estabelece, ficando o seu foco direcionado para um corpo-corpo, corpo tratado como um assunto da ontologia. A espacialização do movimento aqui presente, além de surgir como uma proposta nova no percurso de João Saldanha como coreógrafo, aponta para um entendimento de dança que merece continuar a ser investigado em obras futuras.

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