Israel em transe na obra de Amos Gitai

A Retirada mescla drama familiar à desocupação da Faixa de Gaza

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Se existe um diretor que filma cada vez melhor, com mais leveza e, por paradoxo, mais complexidade, este é o israelense Amos Gitai. Para quem acha, tolamente, que o cinema político morreu, Gitai está aí - com sua meditação constante, aguda, iluminista sobre seu país e o Oriente Médio como um todo. Neste A Retirada, apresentado pela Mostra, Gitai aborda um tema quente, polêmico, e certamente doloroso - a desocupação das colônias judaicas da Faixa de Gaza. Quer dizer, exército israelense usando a força para desalojar cidadãos israelenses. Confira a programação completa da 31.ª Mostra de Cinema A história, porém, toma forma longe dali, com a personagem Ana (Juliette Binoche), cujo meio-irmão é membro do exército de Israel. Eles se encontram na França para o enterro do pai. Essas primeiras seqüências são muito curiosas. A câmera, em longos planos-seqüência (ao gosto do diretor) penetra num austero apartamento, onde o corpo está sendo velado. Uma cantora lírica (Barbara Hendricks) faz a sua participação no ritual. Há um clima de decadentismo, que lembra muito o último Visconti. E qualquer coisa, no personagem de Ana, não se ajusta ao ambiente. Alegre demais para um velório. Sensual demais na recepção ao irmão, que ela relembra, é apenas um meio-irmão, na verdade irmão adotivo, e portanto... Enfim, há uma curva dramática aí que se anuncia, porque Ana é a personagem leviana e, embora seja uma mulher madura, parece levar a vida na flauta. Mas uma transformação a aguarda na segunda metade do filme. Não interessa por que mas existe um affair de família que a obriga a seguir o irmão até Israel. Mais precisamente, até a região em conflito, na Faixa de Gaza, onde os colonos serão desalojados. É nesse ponto que se estabelece uma primeira interseção entre o pessoal e o político. O que tem a ver Ana com a realidade do país judeu, ela que nem se sente judia propriamente, pois mesmo o pai tinha dúvidas sobre a origem, e sua mãe era italiana? E, no entanto, alguma coisa aí vai se estabelecer entre Ana e o estado judeu. O interessante, também, é notar como essa ruptura da personagem é acompanhada por uma mudança de andamento do filme, uma alteração de ritmo. Primeiro os longos planos; que depois serão substituídos por planos mais rápidos, mais cortados. Há uma cena que funciona como primeiro divisor de águas, quando Ana se entrevista com a velha advogada interpretada por Jeanne Moreau (já imaginaram, Binoche contracenando com la Moreau?). Trata-se apenas de alguns momentos, mas o suficiente para colocar em contato duas grandes atrizes, dessas que impregnam a tela de magnetismo. Jeanne lê o testamento. Há nele algumas revelações importantes. Estas determinarão a viagem de Binoche a Israel, coisa que ela não havia cogitado antes. E, a partir de então, o filme torna-se mais fragmentado. Chega a irritar, pois tudo é quebradiço. Nada mais funciona. O carro que tentam levar a Israel não pode entrar no país. Depois entra e sofre um acidente idiota. As pessoas não se entendem. Há problemas de comunicação pois não falam a mesma língua. No sentido literal e no figurado. Binoche não fala hebraico, as pessoas se dirigem a ela num inglês trabalhoso. Mas isso não é o essencial. Há uma eletricidade no ar por conta da desocupação iminente. Todos gritam contra todos e aquilo que se vê (e se ouve) não deixa de ser uma metáfora poderosa da situação no Oriente Médio. Não é por acaso que Amos Gitai tem enfrentado problemas para produzir em seu país. Seus filmes têm esse potencial de incomodar profundamente posições mais à direita do Estado de Israel. Ele cutuca os hábitos religiosos (em Kadosh, por exemplo), a exploração de mão-de-obra estrangeira por israelenses (em Alila) e agora mostra como israelenses podem se voltar contra os próprios israelenses em função das oscilações da política externa do país. Não é cineasta de passar a mão na cabeça de ninguém e mantém uma posição iluminista com relação aos palestinos e os árabes. Muita gente não gosta dele por causa disso. No entanto, essa que seria uma postura política e existencial, só ganha forma no cinema porque Gitai é um grande artista, alguém que cultiva a forma de maneira afinadíssima. Seu cinema é de prospecção e reflexão. Sem deixar de lado a emoção em momento algum. Não existe contradição entre esses termos. Serviço Unibanco Arteplex 1: Hoje, às 18h40. Cotação: Ótimo

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