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'Inferno' deve ser a sensação da Bienal de Artes em São Paulo

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2014 | 19h 50

Filme de Yael Bartana simula a destruição do Templo de Salomão

A mais importante exposição de arte da América Latina, criada em 1951, inaugura amanhã sua 31.ª edição sob o signo da polêmica. Uma carta aberta à Fundação da Bienal de São Paulo, assinada na semana passada por 55 artistas dos 86 participantes, exigiu explicações sobre o apoio financeiro de Israel à mostra, por acreditar que esse dinheiro - depois dos conflitos em Gaza - comprometa a integridade dos artistas e autonomia dos curadores. O presidente da Bienal, Luis Terepins, em resposta, esclareceu que, nesta edição, foram 21 apoios internacionais, entre eles Espanha, Turquia, França e Israel, e que "todos os patrocínios à Bienal foram honrados". Nada mudou na política de apoios à instituição, garantiu Terepins.

Curiosamente, a obra que deverá provocar maior sensação entre os visitantes da Bienal de São Paulo, considerando a reação do público na preview do evento, é justamente um filme israelense, Inferno, da artista Yael Bartana, que já participou da mostra internacional (em 2006 e 2010).

O Inferno de Bartana explora manifestações religiosas de caráter híbrido que proliferam no mundo contemporâneo. No início do filme, três helicópteros sobrevoam São Paulo transportando, entre outros símbolos sagrados, uma Menorah gigantesca e uma réplica da arca da aliança. Na sequência, pagãos seguem em procissão para um ritual celebrado por um sacerdote andrógino. Os fiéis formam um bando de sibaritas reunidos num templo muito parecido com o de Salomão, que foi destruído pelas invasões babilônicas em 584 a.C.

Divulgação
Pelos ares. Cena final de "Inferno"

Um segundo templo foi erigido por Herodes em 64 d.C., também destruído pelos romanos. Dele sobrou o Muro das Lamentações. O foco da realizadora israelense, no entanto, é um terceiro templo (o último, segundo as profecias). Trata-se da réplica brasileira do Templo de Salomão, concebida pela Igreja Universal do Reino de Deus, que ela antevê transformado em ruínas no que chama de pré-encenação de uma tragédia anunciada. Tudo vai pelos ares no epílogo de sua ficção sobre a Nova Jerusalém paulistana. Não sobra nada da utopia messiânica no debochado filme de Yael Bartana, conhecida por investigar a busca de identidade cultural num mundo cada vez mais uniformizado.

A construção de um templo bíblico de arquitetura retrô numa megalópole secular seria, segundo a cineasta, "uma das estratégias da indústria da fé na luta por capital simbólico". Várias obras expostas na Bienal, aliás, confrontam as religiões. O coletivo argentino Etcétera revisita um antigo trabalho do herege León Ferrari (1920-2013), Palabras Ajenas (1967), para construir seu libelo político Errar de Deus. Como o próprio título indica, trata-se de um manifesto surrealista do movimento criado pelo grupo, o Internacional Errorista, que elege o erro como experiência fundamental. Ferrari criou um clube de ímpios, hereges e blasfemos em 1998, que chegou a pedir a extinção do inferno ao papa João Paulo II. O Vaticano negou o pedido. Anteontem, os integrantes do Etcétera entregaram uma nova carta à Santa Sé, pedindo o mesmo ao conterrâneo papa Francisco. Em 2004, o então cardeal de Buenos Aires classificou de blasfema uma mostra de Ferrari - algumas peças dessa exposição estão agora na Bienal. Enquanto o papa decide se acaba ou não com o inferno, ele vai continuar funcionando no pavilhão da Bienal.

OUTROS HEREGES

'Dios Es Marica'

Quatro artistas do Peru, México e Chile mostram desde travestis vestidos com roupas de santas a uma encenação da Última Ceia num prostíbulo de Santiago.

'Línea de Vida'

Imagens do Museu Travesti do Peru, criado pelo filósofo e drag queen Giuseppe Campuzano (1969-2013) contam como a Igreja reprimiu índios andróginos no século 17 e continuou perseguindo gays nos séculos seguintes.

'Capital'

Wilhelm Sasnal pinta o busto coroado de um arcebispo polonês empalado numa picareta, como se fosse um troféu de guerra.

31ª BIENAL DE SÃO PAULO

Pavilhão da Bienal. Av. Pedro Álvares Cabral, Pq. do Ibirapuera, portão 3; 5576-7600. 3ª a dom., 9 h/ 19 h; sáb. até 22 h. Até 7/12.

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