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Gianni Crea, o homem que possui as 2.797 chaves dos Museus Vaticanos

Poucos visitantes percebem que todas as fechaduras são numeradas

Cristina Cabrejas, EFE

16 Maio 2017 | 14h16

Como em uma cena bíblica, Gianni Crea aparece em meio à escuridão de uma Roma ainda adormecida, às cinco horas da manhã, com um enorme molho de chaves na mão e para em frente a um enorme portão de madeira. Ele é o responsável por abrir os Museus Vaticanos.

Procedente do latim "clavarius", o termo claveiro (chaveiro) é usado em ordens religiosas para designar o porte das chaves de um objeto. E nos Museus Vaticanos há 2.797 delas para portões, portas e janelas dos mais de sete quilômetros e meio de salas e cantos mais escondidos.

A cada dia, passadas as 5h, os chaveiros, divididos em quatro setores e carregando centenas de chaves, iniciam um percurso de mais de uma hora para abrir todos os acessos aos Museus Vaticanos para as cerca de 27 mil pessoas que visitam o complexo diariamente.

Crea, de 44 anos, deixou os estudos de Direito para trabalhar no Vaticano. Já são quase 20 anos no serviço de abrir e fechar portas, sempre atento para que ninguém fique dentro dos museus.

Ele se sente "privilegiado" por poder admirar sozinho e em silêncio as obras conservadas nos museus e garante que, mesmo depois de 20 anos percorrendo os corredores do complexo, "não se aborrece nunca" e a cada dia descobre "um novo detalhe".

Agora, Crea é o chefe deste serviço quase desconhecido formado por 11 pessoas que, como lembrou o ex-diretor dos Museus Vaticanos, Antonio Paolucci, têm a responsabilidade de conservar as chaves das portas "do paraíso".

Bem cedo, quando a segurança do Vaticano termina de desativar o alarme, Crea chega com centenas de chaves, quase todas de ferro, e abre a fechadura número um, a do portão central que dá acesso aos museus.

Poucos visitantes percebem que todas as fechaduras dos Museus Vaticanos são numeradas e que Crea encontra a chave certa quase sem olhar.

As 2.797 chaves, que acumulam séculos de existência, se encontram conservadas em um pequeno 'bunker', climatizado para evitar que se oxidem, embora sejam restauradas ocasionalmente, assim como os tesouros dos museus.

Neste molho também se encontra a número 401, a maior, mais pesada e antiga, com mais de 500 anos, que abre o Museu Pio Clementino, o primeiro que alojou a coleção papal e o mais visitado com suas esculturas clássicas.

Dentro do bunker, Crea mostra um pequeno cofre no qual é guardada uma pequena joia: a chave que abre a porta de um dos lugares mais emblemáticos da Igreja Católica e da história da arte: a Capela Sistina.

Essa chave fica dentro de um cofre selado pela direção dos Museus Vaticanos. A abertura tem que ser realizada diante de outro chaveiro que comprove o procedimento correto e seu uso precisa ser anotado em um registro. Pequena e de ferro, essa é a única chave sem numeração e não possui uma cópia.

A Capela Sistina, a principal do palácio apostólico e sede dos conclaves para escolher os papas, é aberta todos os dias somente pelos responsáveis da sacristia pontifícia. Após o uso, a pequena chave precisa retornar à direção para voltar a ser conservada.

De acordo com Crea, a figura do chaveiro herdou os deveres do Marechal do Conclave, que até 1966 tinha de trancar as portas da Capela Sistina para isolar os cardeais em seu interior.

Essa tarefa agora cabe aos chaveiros, que fecham duas das portas da capela que dão acesso aos Museus após o "Extra Omnes" ("Fora Todos") ser exclamado.

Crea explicou que no último conclave, após fechar as portas junto com os colegas, todos subiram ao terraço do Nicchione, de onde se observa uma das mais belas vistas da Basílica de São Pedro, para esperar a fumaça branca que anunciaria Jorge Bergoglio como papa Francisco. EFE

 

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