GRETCHEN ERTL| The New York Times
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Fotógrafa Elsa Dorfman, conhecida pelos polaroides gigantes, pensa em se aposentar

Sua câmera é mais alta do que ela, pesa tanto quanto um jogador de futebol americano e se parece

Randy Kennedy, The New York Times

25 Janeiro 2016 | 14h08

CAMBRIDGE, MASSACHUSETTS – Para fazer um bom retrato, o fotógrafo Henri Cartier-Bresson aconselhou, “você precisa tentar colocar sua câmera entre a pele da pessoa e sua camisa”. Isso seria difícil para qualquer retratista e especialmente assustador para Elsa Dorfman. Sua câmera é mais alta do que ela, pesa tanto quanto um jogador de futebol americano e se parece, de alguns ângulos, com um armário de bebidas dos anos 70.

E, ainda assim, por mais de três décadas, Elsa transformou uma das câmeras mais pesadas do mundo, e uma das mais raras – a Polaroid 50,8 X 61 centímetros, uma das únicas cinco produzidas originalmente pela empresa aqui –, em um instrumento de tal aconchego, intimidade e retrato dos últimos resquícios de espírito boêmio que seu trabalho a tornou uma espécie de heroína popular nesta cidade universitária.

Pendurada na parece de seu modesto estúdio comercial de retratos, no porão de um prédio de escritórios na Avenida Massachusetts, está uma declaração em relevo do Conselho da Cidade de Cambridge transformando-a, mais ou menos, em um monumento local. Ao lado, está a declaração de propósito artístico de Elsa, na medida em que ela se considera uma artista. “Não tento investigar ou iluminar suas almas”, escreve sobre as milhares de pessoas que fotografou, gente comum e extraordinária, desconhecida e muito conhecida (Julia Child, Allen Ginsberg, Errol Morris, Faye Dunaway, Jonathan Richman). “Eles acolhem suas características irregulares e o topete que não fica no lugar. Os japoneses têm uma palavra para essa pose de naturalidade e atenção total – ‘Sonomama’.”

Nos últimos meses, Elsa deixou claro para amigos que esta tentando adotar algo parecido com uma pose de aceitação total – ela não sabe a palavra japonesa para isso ou se vai conseguir fazê-la – para a aposentadoria, aos 78 anos. A razão principal é que o filme e as substâncias químicas de que necessita não são mais produzidos em massa desde 2008, quando a Polaroid, que havia ido à falência anos antes, parou de fazê-los. E o estoque ao qual ela tem acesso está diminuindo, apesar dos esforços de entusiastas da Polaroid para manter as câmeras funcionando.

“Está minguando, e eu estou minguando”, diz ela.

Mas, durante uma animada visita a sua casa, acervo, loja de molduras e estúdio de fotografia – pelo qual passaram mais famílias, recém-casados, bebês e recém-formados do que ela pode contar – Elsa não pareceu alguém que está pronta para se aposentar. Ela parou de se mexer e de contar histórias apenas durante o tempo suficiente para vasculhar arquivos e filmes. E, apesar de agora precisar de alguma ajuda para tirar as impressões de sua câmera gigante, ainda comanda o estúdio, usando um avental preto e um sorriso implacável.

“Ela mexe nessa câmera sozinha há 30 anos, o que é meio insano”, afirma Nafis Azad, diretor de fotografia do 20x24 Studio, uma empresa privada que comprou da Polaroid o estoque de filmes e outros materiais para grandes câmeras em 2009. “O mais comum é que duas ou três pessoas trabalhem com uma dessas”, conta Azad, que esteve no estúdio de Elsa em uma tarde de dezembro para ajudar com impressões tão grandes que pareciam menos com fotografias e mais com esculturas feitas de papel fotográfico.

Elsa – que começou alugando a câmera por alguns períodos em 1980 e se tornou sua única proprietária principalmente porque, diz ela, “eu incomodei a Polaroid e incomodei e incomodei” – está entre um grupo exclusivo de fotógrafos, incluindo Chuck Close, Mary Ellen Mark, David Levinthal e William Wegman, a passar períodos longos com a câmera desenvolvida pelo fundador da Polaroid, Edwin H. Land, no final dos anos 70, para demonstrar a qualidade de seu filme de formato grande.

Ela começou a fotografar relativamente tarde, quase aos 30 anos, depois de uma vida confortável em Boston que se tornou o que pode ser descrito apenas como uma fase adulta estilo Zelig: um ano de faculdade em Paris no mesmo hotel de Susan Sontag; uma experiência como garçonete na Feira Mundial de Bruxelas de 1958, onde recebeu uma oferta do fotógrafo Weegee (“Não tinha ideia de quem ele era!”, conta); um trabalho como secretária para a Grove Press, de Nova York, durante o apogeu de suas batalhas de obscenidades e sua ascendência como o paraíso dos poetas da geração beat, que pareciam gravitar para Elsa como se ela fosse uma protetora.

Foi na Grove que conheceu Ginsberg, que se tornou um amigo de vida inteira, apesar de Elsa ser quase abstêmia e ele, na época, uma farmácia ambulante. Seu primeiro encontro não foi auspicioso. “Ele se aproximou e perguntou: ‘Onde está a latrina?’ E eu pensei: ‘A latrina? Que latrina?’ Nunca havia ouvido aquilo antes”, lembra ela, rindo.

Elsa achou Nova York um pouco sufocante e voltou para Boston, onde deu aulas para a quinta série e acabou se casando (seu marido, Harvey Silverglate, famoso advogado de defesa criminal e defensor das liberdades civis, está entre seus personagens mais fotografados, junto com o filho deles, Isaac). Mas suas conexões com a poesia geraram algo mais quando Gary Snyder lhe mandou uma câmera do Japão, em 1967, e ela começou a usá-la, apesar de não possuir o temperamento que pensava que um fotógrafo de verdade deveria ter. “Mas eu era uma iniciante”, escreveu em “Elsa’s Housebook: A Woman’s Photojournal” (O livro caseiro de Elsa: o fotojornal de uma mulher), um livro sobre seus retratos em branco e preto, publicado em 1974. “Eu olhava para tudo e encarava todo mundo.”

Como ela vai encarar a aposentadoria não se sabe, embora quem a conheça diga que provavelmente Elsa apenas vai tirar menos retratos por ano. Durante uma sessão de fotos recente para este artigo, ela recebeu a ligação de uma dançarina do ventre em seus 70 anos que espera que Elsa faça o seu retrato, um pedido que ela dificilmente vai negar.

A Polaroid, diz ela, é como uma amiga a quem ela não pode imaginar ficar sem encontrar todas as semanas. “Eu me apaixonei por ela. É difícil dizer por que. É como tentar descrever por que você se apaixona por alguém. Você pode listar todas as qualidades, mas não consegue dizer realmente por que.”

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