Fé, engenho e arte de um mestre

Chega a São Paulo a exposição Aleijadinho - Fé, Engenho e Arte, que já passou pelas sedes do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio e Brasília batendo recordes de público - 974 mil visitantes na primeira cidade e 180 mil na segunda - e confirmando o papel de relevo do mestre de Ouro Preto e do barroco mineiro no imaginário nacional. Com mais de 200 obras, dos mais diferentes gêneros (da estatuária original a réplicas de bronze, de fotos a moedas do período), a exposição articula-se como um conjunto de pequenas mostras, nas quais se enfatizam diferentes aspectos da obra do mestre e da cultura que a engendrou. É por meio de aproximações sucessivas, por fragmentos expositivos, que a mostra pretende alinhavar uma idéia geral de quem foi Aleijadinho, qual foi sua importância e como ele é fruto de determinado período histórico, de um novo marco civilizatório, como afirma o curador da exposição, Fábio Magalhães. O período trabalhado é muito curto, de aproximadamente 80 anos, mas são profundas as transformações por que passa a região das Minas Gerais entre a década de 1830, quando nasce o escultor, e os primeiros anos do século 19. São vários os aspectos destacados na mostra e nos textos do catálogo - religiosidade, cultura musical, absorção local da tradição arquitetônica lusitana, etc... Mas como elemento-síntese de todo esse processo, Magalhães elege o ouro, já que é graças a sua descoberta e exploração que a região das Minas passa de florestas ermas e habitadas por índios selvagens a palco de ambições iluministas, como a Inconfidência Mineira (1789). ''''Ele é o grande protagonista da exposição'''', afirma o curador, lembrando que se retirou mais ouro dessa região em 80 anos, do que no mundo inteiro em dois séculos. Por isso o minério tem um segmento especial da exposição, situado no subsolo do CCBB, onde é possível ver barras e moedas cunhadas no período. Não à toa, o espaço também é dividido entre os mapas - que determinam geograficamente os perigos e atrativos dessa exploração - e um conjunto de ex-votos com aspectos da vida rústica e mística em cidades como Vila Rica, atual Ouro Preto. Afinal, o segundo aspecto que sobressai é a profunda religiosidade dessa cultura, marcada por rivalidades e limitações impostas pela Coroa, que chegou a proibir a instalação de ordens religiosas na região das minas para evitar perda de poder e desvio das riquezas. A questão pontua a exposição logo de início. Ao entrar no prédio, o visitante se depara com um tapete de serragem preparado por artesãs mineiras, segundo a tradição mantida em Ouro Preto nas festividades da Semana Santa. Também ocupa o hall de entrada uma série de réplicas dos profetas e dos passos da Paixão, em Congonhas do Campo - uma das maiores obras do artista, segundo a crítica. A obra coletiva traz a imagem da pomba que simboliza o Espírito Santo, segundo padrões de representação típicos do barroco e que estabelece um interessante diálogo com a escultura com a mesma imagem, situada à entrada da sala dedicada a Aleijadinho. Essa sala, no segundo andar do prédio, funciona como uma espécie de coração da exposição, em torno do qual se articulam os outros núcleos. Lá estão reunidos alguns dos grandes destaques da exposição, como a imagem da Ressurreição de Cristo em madeira, de grande sensualidade e refinamento, e que segundo Magalhães atrai as atenções por onde passa. Também é possível ver o belíssimo Espírito Santo em madeira - já citado - e outras peças do mestre, inclusive o trono talhado especialmente para o bispo de Mariana. Mas há também nesse núcleo uma outra peça, que estabelece forte relação como todo o espírito da exposição: a tela Paisagem de Minas, executada em 1950 por Alberto Guignard (1896-1962). Ao estabelecer um diálogo poético entre o escultor, considerado por muitos como o maior artista brasileiro de todos os tempos, e o pintor cujo trabalho de forte filiação expressionista cunhou a imagem por excelência da montanhosa paisagem mineira, a montagem deixa evidente que é necessário pensar a produção de Antônio Francisco Lisboa não como um fenômeno único, uma geração espontânea de genialidade, mas sim inserido em seu contexto histórico e social. Ao longo da mostra, outros diálogos e sintonias são explorados. Para dar uma idéia desse procedimento, basta mencionar alguns dos núcleos de maior destaque: a sala dedicada a três outros mestres contemporâneos a Aleijadinho - Mestre Piranga, Francisco Vieira Servas e Francisco Xavier de Brito -, um amplo segmento iconográfico do século 19 (com obras de Rugendas, Debret...) e um vasto acervo de mapas. O cinema (com o filme Aleijadinho, de Joaquim Pedro de Andrade) e a fotografia (com um conjunto significativo de imagens realizadas por Marc Ferrez ainda no século 19 e por Marcel Gautherot, em meados do século 20) também são importantes auxiliares. É interessante alertar, no entanto, que as imagens fotográficas expostas não são as originais, mas ampliações fora da escala. Há outros exemplos na mostra de reproduções que se preocupam mais em apresentar o aspecto geral da obra de Aleijadinho do que em ser fiel às dimensões originais. Há as réplicas dos Apóstolos, que pertencem ao acervo da Faap e que são ou maiores ou menores do que os originais.C

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2028 | 00h00

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