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Exposições relacionam arte e escrita

- Atualizado: 30 Março 2016 | 06h 00

Mostras de Willys de Castro e de Montez Magno em São Paulo abrem reflexão sobre ligação dos artistas com a poesia

Enquanto pesquisava os arquivos de Willys de Castro (1926-1988) no Instituto de Arte Contemporânea (IAC), o curador Gabriel Perez-Barreiro encontrou um papel onde estava apenas datilografado “lado a lado” – com o “a” levemente rebaixado entre as duas palavras. Na ocasião, foi como achar uma “pista” para conceber uma exposição com um tema específico sobre o artista – no caso, uma mostra que relaciona agora, em São Paulo, um expressivo conjunto de 12 Objetos Ativos criados pelo pintor de 1959 a 1962 e uma seleção de seus escritos, alguns deles, poemas inéditos.

Entre a escultura e a pintura, os Objetos Ativos de Willys de Castro são, estruturalmente, peças de madeira recobertas por telas com composições abstrato-geométricas pintadas a óleo e criadas para serem fixadas na parede. Nessas valiosas obras históricas, “os lados opostos estão sempre em diálogo, com uma das faces geralmente servindo de contraponto à outra por meio de um arranjo positivo-negativo”, como descreve Perez-Barreiro. Teria então o artista se referido a essas obras neoconcretas quando escreveu “Hoje você me viu/ e quando me descobriu/ (embora eu já soubesse/ quem era você/ antes que me tivesse visto)/ senti-me repentinamente/ achado por você e para mim”?

'Objeto Ativo' do artista Willys de Castro em exposição no Instituto de Arte Contemporânea (IAC)
'Objeto Ativo' do artista Willys de Castro em exposição no Instituto de Arte Contemporânea (IAC)

“Comecei a suspeitar que, para o Willys, uma expressão que é tão clara na geometria dos seus trabalhos tem também um lado romântico, emocional, metafísico”, diz Gabriel Perez-Barreiro sobre a pesquisa dos escritos do artista. Segundo o curador, o pintor, gravador, artista gráfico, compositor, “escrevia pouco, mas escrevia muito bem”, e, em sua escrita, seja de poesia, de prosa, ou anotações, destacam-se a questão da percepção e o tema do encontro (que pode ser com o outro ou do que aflora pelo ato de ver).

“Achei um paralelo bonito com o próprio processo do Objeto Ativo, em que a experiência com a obra é construída a partir do olhar e caminhar”, explica o curador da exposição Lado a Lado – Os Objetos Ativos de Willys de Castro, que será inaugurada nesta quarta-feira, 30, no IAC, abrigado no Centro Universitário Belas Artes.

Em 2012, o Instituto de Arte Contemporânea realizou uma exposição que contemplou os vários segmentos de criação do artista – e na época foi lançada uma edição com 32 poemas de Willys de Castro datados do período de 1953 a 1957. Entretanto, desta vez, a mostra Lado a Lado tem como foco “a delicada relação existente entre a forma e a percepção” na obra do pintor apresentada apenas pela exibição, em três espaços neutros e brancos, de 12 Objetos Ativos (quase todos de coleções particulares, exceto o trabalho em forma de cubo de 1962 da Pinacoteca de São Paulo) e 12 textos (datilografados ou escritos com uma “caligrafia muito clara”) do artista expostos em vitrines.

Poema de Willys de Castro na mostra 'Lado a Lado'
Poema de Willys de Castro na mostra 'Lado a Lado'

Para Gabriel Perez-Barreiro, diretor da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, baseada em Nova York, os Objetos Ativos, que “mantêm uma codependência da pintura e da escultura”, são mais emblemáticos do neoconcretismo do que os Bichos de Lygia Clark. “Se você ler o Manifesto Neoconcreto (de 1959), as questões sobre a percepção, o objeto e a relação com o espectador, estão perfeitamente resolvidas no Objeto Ativo”, afirma. “Na minha leitura, a relação do olho e do corpo com o objeto é uma questão íntegra na obra de Willys antes do neoconcretismo se desenvolver em uma arte mais performática.”

Sendo assim, colocar, especialmente, os poemas do pintor mineiro – “austeros, feitos de poucas palavras”, contudo, com “uma temperatura mais quente” e abertos a uma “metáfora do relacionamento” – próximos desse conjunto de históricas criações é uma maneira de contribuir para um novo olhar para o Objeto Ativo.

Dois caminhos

Já na exposição Poemata, do artista pernambucano Montez Magno, de 81 anos, as seguintes palavras estão estampadas na parede da Galeria Pilar, como um haicai: “Há tempo de escrever/ e há tempo de pintar. E há tempo de não fazer/ absolutamente nada”. Como ele conta, “a poesia começou antes dos trabalhos visuais” em sua trajetória (a escrita, em 1950; a pintura, em 1954). Mais ainda, o prolífico criador considera que as duas atividades são “dois caminhos diferentes” em sua produção – “a poesia é mais conceitual e as outras coisas são mais expressionais”, define, por telefone.

“Tenho 12 livros escritos, 11 deles editados, e um inédito”, diz Montez Magno, explicando que o novo Crisálida é lírico e contém também poemas em espanhol. “Uma coisa que me chama a atenção no Montez é sua verve poética”, afirma Lisette Lagnado, curadora da mostra, inaugurada nesta quarta-feira, 30, para o público. A princípio, sua ideia era fazer uma exposição sobre a poesia visual do artista, mas Poemata (união de “poema” e “sonata”, sugeriu, como título, o pernambucano) abriu-se para um território muito mais amplo ao reunir trabalhos criados entre 1964 e 2015.

Maquetes de cidades eletrônicas e outras obras de Montez Magno na mostra 'Poemata'
Maquetes de cidades eletrônicas e outras obras de Montez Magno na mostra 'Poemata'

O sentido de poesia está presente na mostra menos por meio de palavras (leia abaixo um dos poemas que chegou a ser selecionado para ser exposto na individual) e mais no sentido de “síntese de linguagem”, explica Lisette Lagnado. Dessa maneira, pinturas recentes, com leves linhas verticais, como “acordes”, referem-se à ligação do artista com a música, mas são também homenagem à pintora Agnes Martin. Destaque ainda para as surpreendentes “maquetes de cidades eletrônicas” e outras obras que são reflexões sobre espaços e territórios. 

AQUILO QUE NÃO VEJO

Nada quero ver, nem mesmo

o sol que ilumina a flor

isolada no jardim de inverno,

com luz fria e cor acinzentada.

Nada quero ver que me perturbe

o olhar parado no infinito

onde formas variadas, não terrestres,

pairam silenciosas no céu ausente.

No entanto, aquilo que não vejo

recende mais e tem mais cor

que os lírios brancos das florestas.

(Montez Magno, poema extraído do livro ‘Enquanto Respiro’)

LADO A LADO – WILLYS DE CASTRO

IAC. Rua D. Álvaro Alvim, 90, 1º andar, Vila Mariana, tel. 3255-2009. 2ª a 6ª, 10h/18h; sáb., 10h/16h. Grátis. Até 25/6. Abertura hoje(30), 19h

POEMATA (É TUDO POESIA) – MONTEZ MAGNO

Galeria Pilar. Rua Barão de Tatuí, 389, Vila Buarque, tel. 3661-7119. 3ª a 6ª, 11h/19h; sáb., 11h/17h. Grátis. Até 21/5

 

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