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Exposição no MAM reúne 280 obras sobre a fragmentação do ser físico

Mostra 'O Útero do Mundo' fica aberta até 18 de dezembro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2016 | 00h00

Dividida em três módulos, a exposição O Útero do Mundo, aberta até 18 de dezembro, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), apoia-se em três conceitos extraídos da obra literária de Clarice Lispector, notadamente Água Viva e A Paixão Segundo G.H. Até aí, nada demais. A curadora da mostra, que reúne 280 das 5.438 obras do acervo do museu, é também escritora, Verônica Stigger, prestes a lançar um livro chamado Sangue, que tem a ver com o tema da exposição. A mostra começa no núcleo Grito Ancestral, passa para uma segunda sala, Montagem Humana – em que as obras giram em torno da construção de um corpo imaginário – e chega, finalmente, ao terceiro estágio, A Vida Primária, em que o corpo fragmentado, após perder a definição, regride ao estágio mais primitivo da existência.

A exposição é propositalmente excessiva, superpovoada de obras, sem intervalos de respiração entre elas, instaladas num espaço em que cada núcleo é representado por tons diferentes de vermelho. A grosso modo, é como uma viagem virtual no interior do polêmico quadro de Courbet, A Origem do Mundo, pintado em 1866 a pedido de um colecionador turco, que mostra uma vagina semiaberta com generosa cobertura pubiana. Ela evoca nossa ancestralidade e o enigma da diferença sexual, tão fascinante que, na Grécia antiga, lembra a curadora, “o útero era descrito como um animal vivo que se deslocava pelo corpo”.

Também por essa crença, a mulher foi relacionada à errância e instabilidade, sendo associada no século 19 às manifestações histéricas. Verônica Stigger, retomando as explorações que os surrealistas fizeram das descobertas dos neurologistas antigos, em 1928, propõe igualmente uma nova definição de histeria como meio de expressão, a começar com obras que, literalmente, registram gritos – de mulheres e homens – em xilogravuras de Lívio Abramo e Octávio Araújo e fotografias de Otto Stupakoff e Klaus Mitteldorf.

As metamorfoses do corpo indomado, transformado, também foram captadas por artistas normalmente associados a outras linguagens sem vínculos com a figuração, como o concreto Mavignier. Essa é uma das surpresas da exposição, que tirou da reserva técnica do MAM obras raramente ou nunca vistas de artistas hoje consagrados, como os cartazes de Mavignier que usam chapas de raios X ou as imagens de corpos torturados durante a ditadura militar, em 1974, retratados pelo mineiro Juarez Magno.

No segundo núcleo da exposição, Montagem Humana, corpos deformados, transformados e fragmentados surgem em desenhos do escultor Tunga, pinturas de Flávio de Carvalho, fotografias de Edouard Fraipont e um raro nanquim de Cildo Meireles, de 1982. O título do núcleo, conta a curadora, faz referência a um episódio de A Paixão Segundo G.H. em que a protagonista se assusta diante da perda de sua forma humana, relatando a desorganização interna que experimenta após a descoberta do quarto da empregada e da barata com a qual se identifica.

Finalmente, no terceiro núcleo, Vida Primária, a comunhão com insetos, mamíferos e fungos se traduz em obras como as de Rodrigo Braga, Dora Longo Bahia, Thiago Rocha Pitta e numa videoinstalação de Antonio Dias. E há, é claro, a recorrente volta à cena de origem, como acentua a curadora, citando as releituras que retomaram a questão central de A Origem do Mundo, de Courbet – vulvas representadas nas obras de Farnese de Andrade, Alex Flemming, Franklin Cassaro e Paula Trope.

O ÚTERO DO MUNDO

MAM. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.°, tel. 5085-1300. 3ª a dom., 10h/17h30. R$ 6. Grátis aos 

domingos. Até 18/12. 

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