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Exposição em SP reúne peças que traduzem a riqueza pré-colombiana

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

08 Junho 2014 | 09h 00

Mostra de extraordinário valor antropológico será aberta na terça

Uma mostra de extraordinário valor antropológico será aberta na terça-feira, no Museu da Cidade (prédio da Oca, no Ibirapuera), Maias: Revelação de um Tempo sem Fim, reunindo 380 objetos que representam distintos aspectos da vida da civilização maia - ritos religiosos, descobertas científicas, pesquisas astronômicas e diferentes manifestações artísticas. Trata-se de uma oportunidade rara para quem não conhece o valioso acervo que os museus mexicanos, especialmente o Museu Nacional de Antropologia, na Cidade do México, guardam dessa civilização com mais de 3 mil anos de história.

Tendo como curadora Mercedes de la Garza, professora da Universidade Nacional Autônoma do México, a exposição é uma realização do Instituto Nacional de Antropologia e História (Inah) do México, da Prefeitura de São Paulo e da Embaixada do México. A montagem é da Expomus, a mesma da mostra dos pintores impressionistas do Museu d'Orsay que esteve em cartaz há dois anos no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

A professora Mercedes de la Garza, em entrevista ao Estado, revelou que as peças estão ordenadas segundo um roteiro que começa com a ligação dos maias com a natureza, principalmente plantas e animais, prossegue com a relação mística dessa civilização com seus governantes - também sacerdotes -, passa pelas imagens dos deuses, que se manifestavam de diferentes maneiras, chega à época colonial e, finalmente, aos descendentes contemporâneos dos maias, representados por mais de 30 diferentes etnias, hoje exercendo sua principal arte: a têxtil.

A primeira das oito áreas temáticas da mostra, O Homem Frente à Natureza, revela a relação dos maias - e do mundo pré-hispânico, de forma geral - com animais e plantas. Por suas propriedades psicoativas, as plantas, usadas em rituais xamânicos de invocação para cura de doenças, eram consideradas sagradas pelos maias. Porém, nem todas as obras dessa civilização tiveram finalidade religiosa. Tampouco todos os sacerdotes maias fizeram uso de alucinógenos. "Até onde sabemos, só os xamãs e governantes que tinham poderes sobrenaturais recorriam aos alucinógenos para atingir o êxtase, ou a separação voluntária da alma durante a vida", esclarece a curadora da mostra.

Divulgação
Monumento mostra um governante feito prisoneiro pelos senhores de Toniná

Há na exposição máscaras funerárias de jade, urnas, incensários, objetos domésticos de cerâmica, representações de animais e exemplos da sofisticada arquitetura maia, destacando-se a peça mais representativa do período clássico (250 d.C-900 d.C) dessa civilização: o trono do templo XXI de Palenque, uma das cidades maias descoberta pelos espanhóis no século 18 e hoje um dos mais importantes sítios arqueológicos do México.

Na segunda seção da mostra, estão agrupados os ornamentos corporais e costumes da civilização maia, seguindo-se o módulo dedicado à arquitetura e arte escultórica. Nele se destacam peças como a cabeça de Pakal, do período clássico tardio (600-900 d.C), que sintetiza no governante de mesmo nome os traços faciais dos antigos maias - lábios finos, queixo afilado. Do mesmo período há uma estatueta em cerâmica que representa um ancião emergindo de uma flor azul, traduzindo o mito cosmogônico dos índios lacandones (que habitam a selva na fronteira entre México e Guatemala). Com seu sistema religioso baseado nos ciclos da natureza, os lacandones têm como deus K’akoch, que faz surgir dessa flor outros deuses.

Essas forças sagradas, representadas por meio desses deuses míticos esculpidos em cerâmicas, ocupam o sexto módulo e foram encontradas em tumbas. "A crença numa vida em espaços distintos da realidade, de onde os espíritos imortais dos homens podem regressar e participar dos ritos, é comum entre os maias e, nesses espaços, os tempos - passado, presente e futuro - são simultâneos e se interpenetram", observa a curadora, destacando na mostra peças de três sítios arqueológicos (Jaina, Balamkú e Calakmul) que nunca foram exibidas, assim como obras de recentes escavações, como os grandes atlantes de Chichén Itzá (cidade arqueológica do estado de Iucatã). "Todas as peças da exposição são originais", esclarece. "Um dos princípios da curadoria foi não expor nenhuma cópia".

De Jaina veio, por exemplo, um cerâmica do período clássico tardio que representa uma nobre tecelã da ilha, além de um apito zoomórifco. De Chichén Itzá é a escultura da rainha de Uxmal em pedra calcária. Outra figura monumental é a do governante palencano K’inich K’an Joy Chitam, representado com o prisioneiro.

O sofisticado conhecimento astronômico e matemático dos maias foi particularmente considerado na mostra. "É incrível como um povo sem tecnologia ou telescópios foi capaz de definir o ciclo solar com exatidão, criando um calendário mais preciso que o nosso, com um erro de apenas 17 segundos", conclui a curadora.