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EddieLam@ImageArtStudio|Divulgação

Exposição em Hong Kong relaciona obras de Tomie Ohtake, Motherwell e Tang Chang

Uma das chaves condutoras do projeto curatorial foi relacionar a criação pictórica abstrata e o 'deslocamento geográfico'

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Camila Molina,
O Estado de S. Paulo

01 Fevereiro 2016 | 03h00

No centro de arte Para Site em Hong Kong, telas de Tomie Ohtake (1913-2015) dialogam, agora, com pinturas do “canônico” norte-americano Robert Motherwell (1915-1991). Já seria um encontro histórico e notável, mas a exposição The World Is Our Home. A Poem on Abstraction (O mundo é nosso lar. Um poema sobre a abstração) estende ainda mais sua ode à “experimentação na pintura abstrata” ao relacionar os dois criadores com os trabalhos do pintor tailandês Tang Chang (1934-1990) e à videoperformance Dance or Exercise on the Perimeter of a Square (1967/68), de Bruce Nauman.

“As pinturas de Tomie Ohtake falam na contemporaneidade”, define o colombiano Inti Guerrero, que assina com o romeno Cosmin Costinas a curadoria da mostra, em cartaz até 6 de março na China. Guerrero, atualmente curador adjunto de arte latino-americana da Tate, completa que as obras da artista nipo-brasileira parecem, algumas vezes, nos dizer sobre “amplificações do tempo”.

“Fora do Brasil e mesmo dentro do País, existe um triunfo maior do abstracionismo geométrico, o que tem a ver com o concretismo e depois com o neoconcretismo, como discurso mais dominante sobre a arte moderna brasileira”, afirma Inti Guerrero. Nesse sentido, opina o curador, Tomie Ohtake e outros artistas que desenvolveram suas criações no campo da arte abstrata informal ou expressionista no Brasil ficaram “eclipsados”.

Entretanto, a escolha da pintora, escultora e gravadora para participar da mostra em Hong Kong, onde está representada por obras criadas entre 1959 e 1989, deu-se também por outras questões. Como explica Guerrero, uma das chaves condutoras do projeto curatorial foi relacionar a criação pictórica abstrata e o “deslocamento geográfico” vivenciado pelos três pintores da exposição.

No caso de Tomie Ohtake, que, nascida em Kyoto, chegou ao Brasil em 1936 e no País naturalizou-se brasileira e viveu, sua produção artística, destaca o curador colombiano, tem muito de sua origem cultural japonesa – mas a experimentação da artista foi tão particular e intensa que não é possível aprisioná-la em uma espécie de gueto. “Em uma de suas telas você vê claramente uma referência à linguagem caligráfica (japonesa), mas rapidamente na seguinte isso é totalmente quebrado”, descreve.

Guerrero também vincula, por exemplo, o “comentário sobre as limitações da tela” na coreografia sobre uma área quadrada de Nauman aos trabalhos nos quais Tomie representou quase que uma “situação psíquica”, analisa, ao levar as manchas de cores para as bordas de alguns de seus quadros.

As mesmas questões descritas sobre Tomie podem ser identificadas em Motherwell (representado pela série Elegy to the Spanish Republic) e Tang Chang. No caso do primeiro, ele era um norte-americano fascinado pelas tradições japonesa e chinesa. “A grande maioria de suas pinturas abstratas vem dessa sensibilidade”, diz o curador. Já sobre as obras do tailandês, filho de imigrantes chineses, uma característica importante é que sua aproximação com a caligrafia “não é um exercício formalista, é um questionamento da tradição”.

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