Exposição confirma o talento do jovem pintor Felipe Góes

Aos 32 anos, artista revela maturidade ao tratar do tema da paisagem, ecoando a tradição romântica sem o viés religioso

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

01 Agosto 2016 | 03h00
Atualizado 01 Agosto 2016 | 03h00

Num primeiro momento é possível que a luz crepuscular das telas reunidas na exposição Ocaso, do jovem pintor paulistano Felipe Góes, de 32 anos, evoque o romântico alemão Caspar David Friedrich (1774-1840), redescoberto nos anos 1930 pelos expressionistas. Não é só impressão. Há pontos em comum entre a pintura de Friedrich e a de Felipe Góes, em particular a resposta emocional de ambos ao poder da natureza.

Há, porém, elementos que distanciam o alemão do brasileiro, até porque o diálogo de Felipe se dá com a contemporaneidade, confrontando questões do mundo moderno – entre outras, o colapso do ambiente natural. Começando pelas semelhanças, o elo mais sólido entre Friedrich e Góes pode ser definido pela capacidade de levar o espectador a uma dimensão metafísica, qualidade que o crítico John Murray já destacara na pintura do romântico alemão, válida no caso do brasileiro.

A diferença entre os dois começa no modo de ver essa paisagem. Nas telas de Friedrich, a presença humana domina o ambiente, a despeito do tamanho diminuto da Rückenfigur, essa figura sempre vista de costas nas pinturas do alemão. A microescala humana serve para destacar as dimensões sobrenaturais daquilo que contempla – em mais de um sentido, o que levou tanto os religiosos como os nazistas a ver nessa pintura certo gigantismo wagneriano, operístico. Aqui, trata-se, ao contrário, do verdadeiro crepúsculo dos deuses. Na pintura de Góes não há figura humana nem traços da obsessão que Friedrich tinha com a vida após morte. Tampouco a busca do sublime, da comunhão espiritual por meio da contemplação da natureza.

Arrebatamento, sim, é possível. “Admito que essas paisagens tenham, de fato, uma carga dramática, romântica, mas elas nem mesmo se baseiam num modelo real”, revela o pintor. “Estive recentemente na Noruega e notei que essas telas, feitas antes da viagem, dialogam com as cores, os reflexos de Munch.” De fato, embora pinte num país tropical, sob uma luz que cega, ele transporta para a tela a bidimensional estética pós-impressionista do sintetismo, que marcou Munch após ver as telas de Émile Bernard.

O objetivo dessa manobra é claro: acentuar a ambiguidade da representação da natureza, que não se baseia na memória fotográfica, mas na invenção. Livre de convenções, ele pinta montanhas que sugerem outras formas ou matas que se confundem com o aglomerado urbano. Ao contrário das primeiras telas do jovem pintor, as atuais não são solares. Tendem ao monocromatismo, o que amplifica essa ambiguidade, explorada a partir mesmo da técnica escolhida – uma mistura de tinta acrílica e guache, que dá um aspecto aquarelado, guignardiano, a essas pinturas engenhosamente simples.

Reforçando o paralelo com o sintetismo, é preciso lembrar que a paisagem, nas telas de Góes, constitui um exercício de subversão do olhar, ao brincar com o conceito de “pintura de superfície” cunhado pelos americanos – mas intuída pelos pós-impressionistas, que já reduziam o mundo a uma planaridade exemplar. Na tela maior da exposição, um díptico, Góes divide a paisagem ao meio, mas o lado esquerdo não espelha a linha horizontal do direito, como nos planos pictóricos cubistas, causando um ligeiro distúrbio no olho do espectador.

“Se eu usasse a figura humana, essa paisagem perderia em escala”, argumenta o artista. E, depois, a figura iria alterar a natureza dessas obras, que, ao contrário das telas de Friedrich, recusam o conteúdo alegórico-religioso das telas românticas alemãs e a tradição da pintura impressionista ‘plein-air’ (Góes cria em estúdio essas paisagens, sem modelos reais em mente). “Fico imaginando se aquelas praias e lagoas de Pancetti não ficariam mais interessantes sem a presença daqueles personagens”, diz Góes.

Sua rejeição ao esquematismo o distancia não só de Pancetti como do próprio Friedrich, que trabalhou com a justaposição de formas simbólicas da natureza. Góes, ao contrário, não pinta o mundo pensando numa dimensão simbólica além dos penhascos e abismos do romantismo alemão. As suas são paisagens estreitamente ligadas ao processo de secularização, que buscam a harmonização entre homem e natureza no simples ato de contemplar – o que faz da pintura uma força avassaladora, ainda que essa experiência não diminua a distância entre ele e o mundo natural.

Mais que Munch, é com o neorromântico Harald Sohlberg que Góes guarda afinidade. O desejo de viagem na modernidade, a vontade de estar num lugar absolutamente desconhecido, pode levar – como levou Sohlberg – a descobrir que não é preciso ir longe para descobrir que essa paisagem inaudita sempre esteve ali, mas nunca olhamos para ela.

Para quem tem curiosidade, é bom correr para ver a exposição de Felipe Góes, pintor que cresce a cada mostra e já está presente em importantes coleções (Figueiredo Ferraz, entre elas). Ela termina amanhã, dia 2 Depois, só na coletiva que ele faz, no segundo semestre, com dois artistas norte-americanos a convite do Phoenix Institut of Contemporary Art, onde foi bolsista.

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