Exposição celebra a diversidade da América Latina

Brasileiros são destaque de 'Sob o Mesmo Sol', em NY

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2014 | 09h00

NOVA YORK - "Ouro falso", diz o artista paulistano Adriano Costa sobre a instalação que ele criou com toalhas de banho e pedaços de plástico que, pintados de dourado, repousam geometricamente no chão do museu Guggenheim de Nova York. Aos 39 anos, o brasileiro afirma que ainda está para entender o convite que Hélio Oiticica fez décadas atrás: "Vamos colocar a cor no espaço?". Mas, na verdade, Straight From The House - Ouro Velho, realizada em 2013, guarda, na contemporaneidade, outras muitas questões. Traz a referência ao “brilho do ouro” do barroco brasileiro, “que nada mais é do que dominação”; fala de dinheiro e poder, que, no Brasil, considera, é uma equação oscilante e rápida. "Há pouco tempo atrás, éramos a quinta economia do mundo e agora já não mais."

Condensando uma natureza solar e precária, o trabalho de Adriano Costa é um dos destaques da mostra Sob o Mesmo Sol: Arte da América Latina Hoje, inaugurada ontem em três espaços do Guggenheim nova iorquino. Com curadoria do mexicano Pablo León de La Barra, a exposição, formada por obras de 40 criadores de 15 países, será apresentada entre abril e junho de 2015 no Museu de Arte Moderna de São Paulo - e depois seguirá para o Museo Jumex, na Cidade do México.

"Já não podemos falar de uma só America Latina, a representação regional não mais funciona", afirma Pablo de La Barra. "Mesmo assim, há uma série de coincidências, paralelismos, conexões históricas e contemporâneas nas sensibilidades que existem abaixo do mesmo sol", continua o curador. Sobre o título da exibição, o mexicano ainda lembra que as colônias espanholas e portuguesa eram “impérios onde o sol nunca se punha". "É presente nos trabalhos dos artistas a maneira como eles respondem a essas histórias."

Jogar com os clichês, expressa La Barra, foi uma estratégia para transformar conceitos sobre latino-americanos. A instalação Ya Veremos Como Todo Reverbera (2012), do mexicano Carlos Amorales, é uma das primeiras peças da exposição, um móbile de pratos de bateria suspensos a serem tocados pelo público. Alguns visitantes extravasam com a obra, outros participam mais timidamente do trabalho - existe algum humor em trechos da exposição, derivados da raiz crítica-conceitual, um caráter sensorial e sutilezas potentes como nos cartões-postais da mineira Rivane Neuenschwander em Mapa-Múndi BR (2007), sequência de imagens feitas no interior do Brasil.

Mais ainda, ativismo político, a ideia de "tropical" como estética "divergente da Europa e América do Norte", a abstração e a participação ativa do visitante são segmentos que vão costurando a mostra. Deste último nicho, o curador exemplifica sua escolha pela instalação Cartazes para o Museu do Homem do Nordeste, que o alagoano residente no Recife Jonathas de Andrade exibiu no ano passado no Brasil com grande sucesso. O espectador é convidado a rearranjar as peças do trabalho, que trata de miscigenação e resgata conceito do antropólogo Gilberto Freyre.

Do Brasil, Sob o Mesmo Sol, em cartaz até outubro e que também apresenta programação de filmes, coloca ainda a presença de Paulo Bruscky, Tamar Guimarães, Erika Verzutti, Carla Zaccagnini - as participações do sueco Runo Lagomarsino (em Contra Tempos, ele registrou, na marquise do Parque do Ibirapuera, rachaduras na forma do mapa da América Latina, numa reflexão sobre a modernidade) e da francesa Dominique González-Foerster podem ser consideradas brasileiras também, já que os artistas vivem em São Paulo e Rio, respectivamente, há tempos.

De outros países latinos, há trabalhos, por exemplo, das argentinas Marta Minujín e Amalia Pica, dos mexicanos Gabriel Orozco e Damian Ortega, dos cubanos Wilfredo Prieto e Tania Bruguera, do venezuelano Javier Téllez e do chileno Alfredo Jaar. A seleção preza, afinal, a mistura de criadores de diferentes gerações.

Aquisição. A exposição de arte da América Latina integra o projeto Guggenheim UBS Global Art Initiative, que já "mapeou", em 2012, o Sul da Ásia com mostras que foram apresentadas em Nova York, Cingapura e Hong Kong, e depois, em 2016, será dedicado ao Norte da África e Oriente Médio. Mas, mais do que as exposições, o programa promove a aquisição de todas as obras participantes para o acervo do museu norte-americano.

Trabalhos de jovens entram, assim, para a coleção da prestigiada instituição, como também os de criadores de trajetórias exemplares nas décadas de 1960, 70 e 80. “Era muito importante mostrar que há uma pré-história das práticas conceituais contemporâneas”, afirma Pablo Léon de La Barra. "Muitos dos artistas da exposição haviam estado nos EUA trabalhando durante esses anos, exilados de seus países por causa da situação ditatorial ou repressiva dos governos."

"Em Nova York encontraram um solo fértil para desenvolver seus trabalhos em diálogo com a cena artística do momento", continua o curador. Ele acredita que criadores como o chileno Juan Downey" desapareceram desta história escrita desde os EUA". Mais ainda, muitos deles foram bolsistas da família Guggenheim, como Luis Camnitzer e Paulo Bruscky.

O pernambucano, por exemplo, participa de Sob o Mesmo Sol com um de seus históricos anúncios publicados nos classificados de jornais, feito em 1982, nos EUA, com Daniel Santiago. A dupla solicitou a colaboração das pessoas com propostas para uma composição de nuvens coloridas para o céu de Nova York. Era a "Air Art", naquela época.

Mostra será exibida em São Paulo em abril de 2015

Depois da América Latina, o foco do projeto Guggenheim UBS Map vai se voltar para a arte do Norte da África e do Oriente Médio. As mostras derivadas da iniciativa ocorrerão a partir de 2016, mas a região escolhida envolve um tema polêmico referente à instituição americana, a construção bilionária de uma filial do museu na ilha de Saadiyat, em Abu Dhabi.

Nos últimos anos, a obra, anunciada em 2006, com projeto do arquiteto Frank Gehry, vem recebendo duras críticas. Artistas, como o libanês Walid Raad e os membros do grupo Guerrilla Girls, têm sido expoentes recentes de protestos contra as denúncias de violações de leis trabalhistas relativas ao projeto. “Todos estão preocupados em trabalhar corretamente, não importa onde estivermos", diz Richard Armstrong, diretor do Museu e Fundação Solomon R. Guggenheim. "No caso de Abu Dabi, estamos trabalhando com o governo no sentido de fazer mudanças nas leis de trabalho, estabelecendo um novo modelo para a região", completa.

Sobre o Brasil, o diretor afirma que a estratégia da instituição é aumentar as parcerias - ele destaca como último destaque de diálogo com o País a exposição Brazil: Body and Soul, em 2001.

A itinerância da mostra Sob o Mesmo Sol: Arte da América Latina em abril de 2015 para o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo é a primeira ação nesse sentido. "É uma cidade de grande público e sabemos que teremos profissionais importantes nas aberturas da exposições, possíveis futuros parceiros”, diz Armstrong. Avesso a falar do orçamento do projeto Guggenheim UBS Map, que inclui a compra das obras expostas - da Ásia, foram 26; de arte latino-americana, 50 -, ele declara que a maior parte das despesas da mostra no MAM será do patrocinador americano.

* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO SOLOMON R. GUGGENHEIM MUSEUM

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