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Estrelas, constelações e galáxias

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Nelson Motta

A morte de Michael Jackson é um dos signos mais evidentes e dolorosos do fim da era dos popstars planetários. Até os anos 90, o poder de comunicação e difusão estava nas mãos das cinco grandes gravadoras multinacionais, só elas tinham dinheiro, tecnologia e organização para divulgar, promover e vender seus artistas no mundo inteiro. Estratégia vitoriosa: as filiais internacionais dividiam os custos, e multiplicavam os lucros. Tão vitoriosa que, cada vez mais, os orçamentos de promoção e marketing passaram a superar os de produção e desenvolvimento. Na era da internet, da tecnologia da informação, democratização dos meios de comunicação, o efeito é a multiplicação de estrelas musicais locais, regionais, nacionais, e cada vez menos popstars globais como Michael Jackson, Madonna ou Rolling Stones. Esses são história viva. Hoje, os pretendentes ao estrelato mundial competem com todos os anônimos, ou quase, com todas as pequenas e médias estrelas em ascensão em todos os cantos do mundo, que cantam na língua que as pessoas entendem, que falam de coisas que eles sentem, que têm redes de fãs na internet. Produzir é fácil, difícil é chamar a atenção do publico. Está dura a vida de popstar hoje em dia. Nos anos 70 e 80, não só da ditadura, mas do nacionalismo e do protecionismo, a música anglo-americana dominava os grandes mercados e os periféricos, inclusive o Brasil, apesar de nossa fabulosa produção musical da época. Com a globalização e a internet, as previsões nacionalistas e anti-imperialistas eram de que a música anglo-americana, o som do Império, tomaria conta do mundo de vez, era tudo uma conspiração tecnológica para dominar o planeta. Pura paranoia do perfeito idiota latino-americano. Na era da informação globalizada, o jogo virou: as músicas nacionais passaram a dominar as vendas de discos. No Brasil, mais de 70% do mercado são de produto nacional, bruto ou fino. E também na China, na Índia, na Espanha, no Japão, os artistas nacionais dominam o mercado. A internet pulverizou a informação e transformou um céu de poucas estrelas muito brilhantes em novas constelações e galáxias.

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