Encontro privilegiou América Latina

Em sua 3ª edição, Fliporto, a festa de Porto de Galinhas reuniu escritores de países como Venezuela, Cuba, Peru e Colômbia

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

01 Outubro 2007 | 00h00

Os 20 anos de morte do escritor e sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), os 80 anos de Ariano Suassuna e o centenário de nascimento do crítico e dramaturgo Hermilo Borba Filho (1907-1976) foram lembrados na 3ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto), em Ipojuca, Pernambuco, encerrada ontem com uma palestra de Ariano Suassuna sobre D. Quixote de Cervantes e saldo positivo para a literatura e os festivais literários do Brasil. Organizada segundo o modelo da festa similar de Paraty, que existe há mais tempo, a Fliporto dedicou sua terceira edição à literatura produzida na América Latina, reunindo em Porto de Galinhas escritores brasileiros, colombianos, cubanos, mexicanos, peruanos e venezuelanos. A recuperação do acervo literário de Gilberto Freyre, autor do clássico Casa Grande & Senzala, foi o principal anúncio feito na Fliporto. O bibliotecário Edson Nery da Fonseca, professor emérito da Universidade de Brasília e considerado o maior especialista na obra do escritor, fez uma palestra em que anunciou uma nova publicação da obras hoje esgotadas de Freyre, entre elas Palavras Repatriadas e Americanidade e Latinidade da América Latina, pela Universidade de Brasília em co-edição com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Com a morte do autor, os escritos do sociólogo ficaram sob a guarda de Nery da Fonseca, amigo e confidente de Freyre em seus últimos anos de vida e considerado seu biógrafo oficial. A ''''Gilbertiana'''', como ele chama a biblioteca com documentos e livros de Gilberto Freyre, foi comprada pelo empresário Ricardo Brennand, segundo revelou o professor. Nery da Fonseca defendeu o amigo das críticas formuladas por Sérgio Buarque de Holanda em Cobra de Vidro, em que o mesmo classifica Freyre de pan-lusista, por fazer o elogio do colonizador português (em especial da escravidão portuguesa, menos violenta que a relação dos ingleses com seus cativos, segundo Freyre). O amigo do sociólogo diz que ele nunca defendeu o sistema escravista, condenando, ao contrário, a violência dos colonizadores contra as civilizações ameríndias. O professor escreveu um livro, Em Torno de Gilberto Freyre, em que pretende esclarecer alguns pontos ainda obscuros na obra do amigo e explicar mais detalhadamente a polêmica noção de mestiçagem e democracia racial exposta na obra do sociólogo. O bibliotecário afirmou que sua obra é propositalmente ''''incompleta''''. Poderia igualmente dizer ambígua, pois o próprio Freyre admitiu a José Lins do Rego que sempre existiu uma relação estreita e complexa entre sua vida e obra, sendo que, no caso do sociólogo, ela é cheia de equívocos políticos, em especial apoiar regimes de exceção. Outro pernambucano cuja obra é fundamental para a cultura brasileira e que nunca foi suficientemente discutido no meio intelectual do Sul e Sudeste é Hermilo Borba Filho, homenageado com um debate sobre sua dramaturgia do qual participaram especialistas em sua obra como Cristiano Ramos, Luís Reis e Ricardo Noblat. Advogado e escritor, ele começou a carreira teatral nos anos 1940, ao lado de Ariano Suassuna, revolucionando a sintaxe dramatúrgica com a inclusão de palavrões no textos, ousadia que lhe custou injustamente, segundo Cristiano Ramos, a fama de sensacionalista, quando Borba Filho não considerava palavras de baixo calão muito diferentes das legitimadas pelo dicionário oficial. Identificado com a proposta de um teatro popular, o dramaturgo, autor de peças como Electra no Circo, foi, de acordo com o palestrante Ramos, um autor que propôs uma revolução lingüística em seus romances, dos quais destacou Caminhos da Solidão (1957) e Agá (1974). Outra palestra que se destacou na Fliporto foi a do poeta Marcus Accioly sobre literatura latino-americana. Autor do livro Latinoamérica (Topbooks), Accioly analisou a obra de grandes clássicos, tentando identificar em cada um deles a contribuição para a construção de uma identidade latina por meio da linguagem, do endurecimento da língua portuguesa por Euclides da Cunha aos neologismos de Guimarães Rosa que a libertam em Grande Sertão: Veredas, forjando não só um universo semântico como fundando uma nova ordem literária. Accioly, poeta pernambucano nascido em Aliança, abriu caminho para uma série de painéis sobre poesia na América Latina, incluindo um muito curioso, sobre a produção poética do guerrilheiro argentino Che Guevara por Xose Lois Garcia, escritor galego que mora em Barcelona. Em tempo: a poesia de Guevara não era nada revolucionária. A Fliporto não foi feita apenas de palestras. Curiosas oficinas literárias, como a de poesia quéchua pelo peruano Odi Gonzales, chamaram a atenção para culturas ancestrais da América Latina, mostrando como a cultura maia, por exemplo, antecipou em muitos séculos, a linguagem cifrada dos modernos computadores. O escritor pernambucano Raimundo Carrrero, de quem a editora Iluminuras acaba de lançar O Amor Não Tem Bons Sentimentos, analisou o processo embrionário do romance brasileiro destacando a obra de Machado de Assis (em especial Dom Casmurro) e suas relações com a literatura de Sterne e Flaubert. Carrero participou ainda de uma mesa ao lado do escritor angolano José Eduardo Agualusa em homenagem à África que, segundo o último, tem mais coisas em comum com o Brasil do que Portugal.

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