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Eliseu Visconti, precursor do modernismo, ganha retrospectiva em São Paulo

Pintor de origem italiana, que se fixou com sete anos no Brasil, tem sua obra reavaliada em retrospectiva da Galeria Almeida e Dale

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2016 | 05h00

No ano em que o pintor italiano Eliseu Visconti nasceu, 1866, outro artista, o francês Gustave Courbet, pintou sua tela mais ousada, a pedido de um diplomata turco. A pintura de Courbet, A Origem do Mundo, mostra apenas as pernas e o tufo pubiano de uma mulher não identificada. Quase trinta anos depois, Visconti pintou uma série de nus em que, a exemplo de Courbet, mantinha a crueza da cena, expondo os mesmos pelos pubianos, o que poderia ter provocado um novo escândalo – afinal, essas pinturas datam de 1894 e 1895. Isso só não aconteceu devido à sutileza da pintura de Visconti, que ganha, a partir de hoje, 29, uma retrospectiva na Galeria Almeida & Dale. Com os citados nus, inclusive.

Visconti, que se naturalizou brasileiro em 1890, era não só delicado como um visionário. Nosso principal representante do impressionismo, apesar de ter antecipado temas depois tratados pelos modernistas – a desigualdade social, os tipos populares, a marginalização do negro, a paisagem diluída pela luz tropical – foi simplesmente ignorado pelos organizadores da Semana de Arte de 1922, visto por eles como um acadêmico, pelo fato de ter estudado com Victor Meireles, Bernardelli e Amoedo na Academia Imperial de Belas Artes.

A esse respeito, o crítico pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981) escreveu que os modernistas brasileiros teriam aprendido muito com a experiência de Visconti, que testemunhou, em Paris, a eclosão de vários movimentos europeus na virada do século, do simbolismo ao pós-impressionismo. Esse diálogo, infelizmente, não vingou, e o resultado disso é uma omissão na historiografia brasileira, que nem sequer considerou a modernidade de Visconti.

Denise Mattar, curadora da mostra, considera mesmo que a figura do artista foi eclipsada pelo lobby modernista de 1922.

“No entanto, isso não impediu que ele fosse reconhecido e disputado em vida, o que pode ser atestado pela encomenda da Prefeitura do Rio para a execução das pinturas no Teatro Municipal, em 1905”, lembra a curadora, que tem assinado todas a exposições retrospectivas promovidas pela Almeida & Dale (Bonadei, De Fiori, Di Cavalcanti, Guignard, Ismael Nery e Volpi).

A retrospectiva de Eliseu Visconti traz obras raras, entre as quais uma que é a mais reproduzida entre todas as que produziu, mas que há 40 anos não era exposta, Moça no Trigal (1916), pertencente a um colecionador de São Paulo. A tela tem as cores sóbrias do precursor do realismo francês, Jean-François Milet (1814-1875), e a luz dos paisagistas da escola de Barbizon. Compreensível. Visconti morou alguns anos na França. Ganhou uma bolsa, foi para Paris, casou-se com uma francesa e voltou, atraído pela paisagem e tipos de sua terra adotiva.

Há na mostra pinturas realizadas durante o período francês, entre elas cenas familiares no Jardim de Luxemburgo (1905), maior parque público parisiense. A maior parte das obras, porém, foi produzida aqui. Há também telas inéditas, como Busto de Mulher (1900) e Baixada de Vila Rica (1924). Três pinturas datadas do período anterior à primeira viagem constituem uma excelente oportunidade para avaliar o conteúdo social da obra de Visconti: Casebre no fim da praia do Flamengo (1888), Menino na Ladeira (1889) e Uma Rua na Favela (1890). “Essa última tela é considerada como a primeira obra de arte brasileira a retratar essa realidade, mostrando uma mulher negra com uma bacia de roupas”, observa a curadora Denise Mattar.

Na virada do século, a predominância de retratos familiares em tons sombrios revela a acurada observação de Velázquez (de quem fez cópias) e dos barrocos italianos, especialmente no óleo Perfil de Mulher (1906), da coleção do editor Charles Cosac. A curadora conseguiu reunir autorretratos do pintor de diversos períodos e ainda uma coleção de objetos e peças gráficas desenhados pelo artista, que viveu a belle époque e foi marcado pela arte decorativa do mestre Eugéne Grasset.

“Seus trabalhos na área, como cartazes publicitários, cerâmicas, vitrais e luminárias mostram como Visconti foi também pioneiro na área do design no Brasil”, destaca a curadora, lembrando como eles foram importantes para a confecção dos trabalhos de decoração do Teatro Municipal entre 1905 e 1907, sua obra pública mais importante.

ELISEU VISCONTI - 150 ANOS

Galeria Almeida e Dale. Rua Caconde, 152, tel. 3887-7130. 2ª a 6ª, 10h/18h; sáb., 10h/14h. Grátis. Até 10/12. Abertura hoje, 11h. 

 

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