Ele gravou a magia de uma época

Norman Granz, produtor de Ella, Duke e Basie, ganha homenagem em DVD

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

14 Março 2009 | 00h00

Muitas vezes só se percebe que houve um clímax de um determinado estilo musical tempos depois que ele passou. Sobretudo quando alguém funciona como antena que capta, sintetiza e preserva aqueles raros momentos para a posteridade. Foi o que aconteceu com o produtor Norman Granz (1918-2001). Ele jamais tocou uma nota em público, mas foi o grande responsável pela preservação de um mágico período do jazz, entre os anos 40 e o final da década de 80. Quase quatro décadas em que pareciam brilhar vários dos maiores talentos improvisadores que o jazz conheceu. Mal comparando, parecia aquela Viena fin-de-siècle da passagem dos séculos 19 e 20, onde muita gente, Mahler à frente, reproduzia em música aquele mundo maravilhoso à beira do abismo. Só que transplantada para a música afro-americana. Coleman Hawkins, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Dizzy Gillespie, Ray Brown, Roy Eldridge, Benny Carter, Clark Terry, Harry "Sweets" Edison, Zoot Sims, Joe Pass, Oscar Peterson, Eddie "Lockjaw" Davies, Hank Jones: um timaço de notáveis capitaneados por três gênios do jazz moderno, Charlie Parker, Duke Ellington e Count Basie. Em 1944 Granz concebeu uma maneira de levar esta trupe, com algumas mudanças e acréscimos eventuais, para todo canto do mundo, por meio da sigla JATP - Jazz at the Philharmonic (a sigla surgiu em função da primeira apresentação, que aconteceu no auditório da Filarmônica de Los Angeles). Tirou os caras dos cabarés e night clubs e levou-os para os teatros, ganhando mais dinheiro. Transformou-os em showmen, os colocou pra improvisar ali, na frente do público, sem preparação. Promoveu encontros inesperados, gravou seus ídolos, de todas as maneiras possíveis. Improvisation, DVD duplo que acaba de ser lançado em edição nacional pela ST2, é um belo tributo à inteligência musical de Norman Granz. O crítico Nat Hentoff faz um perfil dele, e o próprio Granz comenta cada capítulo. E que capítulos. A maior parte das imagens já estava disponível em outros DVDs da Pablo, mas elas permanecem mágicas. Duke Ellington improvisando ao ar livre um Blues for Joan Miro com o próprio à sua frente, no museu ao ar livre da Fundação Maeght, na Suíça, em 1966. Ella Fitzgerald, "scateando" como ninguém mais soube ou sabe fazer, em três aparições; Joe Pass em dois shows-solo no violão. E, sobretudo, duas performances magistrais de Count Basie e seu piano minimalista. É interessante comparar Duke e Basie em situação de trio piano-contrabaixo-bateria. Se o primeiro toca um piano suculento em harmonias e dissonâncias, o segundo faz da espontaneidade sua maior arma de sedução. O filé, porém, são os dois curtas que Granz fez com o fotógrafo Gjon Mili, que estão no segundo DVD. O primeiro, de 1944, foi indicado ao Oscar daquele ano na categoria melhor curta; e o segundo, filmado no estúdio fotográfico de Mili, aparece agora restaurado. A abertura de Jammin? the Blues, o curta de 1944, já impacta: fumaça de cigarro dança subindo à direita no vídeo, enquanto no centro dois círculos em preto sobre fundo preto só deixam perceber que se trata do chapéu "porkpie" do saxofonista Lester Young no movimento da câmera. Red Callender, Harry Edison, Sidney Catlett, Jo Jones e Illinois Jacquet são liderados pelo inconfundível genial sax de Young. São 15 minutos maravilhosos. O locutor chama o jazz de "sinfonia da meia-noite", enquanto Lester ataca a primeira balada. A câmera passeia com calma pelos músicos, para e os acaricia. A performance vocal de Marie Bryant em On the Sunny Side of the Street é fantástica, mas a gente fica com muita vontade de ver outra figura naquele lugar e naquele momento: Lady Day, Billie Holiday, o grande amor platônico de Lester Young. A jam termina com um tema coletivo mais rápido, ideal para os improvisos. Um casal passa dançando, as imagens dos músicos tocando são multiplicadas - vários recursos que depois tornaram-se corriqueiros aqui eram realizados pela primeira vez. Jammin? the Blues fez escola na filmagem de shows de jazz. Em 1950, Granz e Mili reuniram-se de novo para um segundo Jammin? the Blues. Mas usaram o estúdio fotográfico de Mili, que não tinha condições de sonorização ao vivo. "Por isso", diz Granz no DVD, "tivemos que pré-gravar a música e rezamos para que os músicos sincronizassem direitinho com as imagens". Como isso quase sempre não acontece, os próprios músicos dão risinhos, respiram na hora errada, entreolham-se meio envergonhados. Enfim, vale mais como um copião do que obra acabada. E, claro, pela primeira e única aparição em vídeo de dois gigantes do saxofone-jazz, Coleman Hawkins e Charlie Parker. Pena que só o som é verdadeiro. As imagens são de mentirinha.

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