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Deixa cair

Lúcia Guimarães

Jonas, a maior nevasca da história de Nova York ou a segunda maior? A diferença, de cinco centímetros de acumulação, anima o debate no rádio que ouço ainda no escuro, a cortina abrindo uma fresta para a pilha de neve no ar-condicionado. Uma pilha que medi com régua, claro, porque tempestades de inverno são oportunidades de vanglória. E a vaidade invernal não discrimina – governadores se ufanaram de suas extraordinárias equipes de emergência, lunáticos simularam natação olímpica saltando de sunga na pilha branca no quintal, e um carro de polícia patrulhou as ruas desertas com o alto-falante tocando a canção de Frozen.

Esta colunista, que embarcou mais cedo do Rio para não ser excluída do ritual anual de insensatez, não poupou a família de vídeos que provocavam reação imediata em mensagens de texto e na rede social: Volta pra casa já! Perdeu o juízo? 

Em companhia de brasileiros recém-instalados nesta ilha, horas antes do início da nevasca, fui questionada sobre a pompa meteorológica que toma conta da mídia norte-americana e adquire um tom de apocalipse risível, muito bem resumido na sátira do The Onion: “Prefeito de Nova York: Reconciliem-se com seu Deus, porque todos morrerão na tempestade”.

Toda vez que anunciam nova pesquisa sobre índice de felicidade e países escandinavos aparecem no topo da lista, eu me pergunto o que o longo inverno tem a ver com o contentamento, além dos confortos conhecidos em suas economias.

Do lado de cá do Atlântico, o foco é na depressão do inverno, batizada de Seasonal Affective Disorder, um transtorno sazonal. Médicos recomendam luminárias que simulem a luz do Sol. Mas os escandinavos enfrentam as longas horas de escuridão diária equipados de atitude. Uma pesquisadora norte-americana da felicidade escandinava desconfia que uma noção peculiar de aconchego faz diferença. O inverno é para ser desfrutado, não enfrentado. A palavra dinamarquesa hygge, assim como a nossa saudade, não tem tradução. Hygge expressa a fusão do aconchego físico à proximidade de pessoas.

Quem entre nós, enfrentando verões cada vez mais escorchantes no sul, não sorri imaginando um fim de semana frio num refúgio de serra no Brasil? Lareiras, cobertores, vinho e boa conversa. Ou seja, hygge. Onde outros veem meses de isolamento, dinamarqueses, suecos, noruegueses, finlandeses veem oportunidade de aproximação. Eles tentam adaptar as horas de trabalho, ao contrário de, por exemplo, nova-iorquinos, que tratam a neve como uma interrupção – das linhas de metrô, dos espetáculos da Broadway, do eterno “business as usual”.

Foi com a cidade paralisada por nevascas que tive algumas das experiências mais calorosas ou engraçadas. Como na ocasião em que uma mulher chegou ao caixa automático do banco como esquiadora de cross country e foi aplaudida. Na noite de sábado, uma longa fila se formava na única deli aberta perto da minha rua. Os fregueses ignoravam o pedido do prefeito para ninguém sair de casa. Ao contrário de um dia comum, estranhos puxavam conversa e todos davam parabéns ao dono por manter a loja aberta.

Com a proibição de circulação de automóveis, linhas de metrô e ônibus suspensas, muitos dos mais de 30 mil porteiros de Nova York não chegaram ao trabalho. No meu prédio, só um, o albanês, apareceu de carro, e riu quando perguntei como tinha conseguido desafiar a neve e a polícia. Depois de sobreviver numa família de dissidentes à ditadura de Enver Hoxha, uma nevasca nova-iorquina não haveria de intimidar o homem. Perguntei: Tem comida para passar a noite? Não, ele disse, orgulhoso, sem sombra de queixa. Aproveitei para infligir minha culinária sofrível ao porteiro. Ele raspou o prato e me sabatinou sobre os ingredientes do frango. Alçada a chef, ainda que fugaz, entendi melhor o que é hygge.

 

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