Lucia Guimarães/Estadão
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Decisão do Met de cobrar ingresso causa reações indignadas

A direção do museu estima que os pagantes serão 30% dos visitantes e vão gerar uma receita calculada entre US$ 6 e US$ 11 milhões

Lucia Guimarães, O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2018 | 22h39

NOVA YORK - Reclamar faz parte do DNA nova-iorquino. A metrópole americana mais associada à irritabilidade de seus habitantes chegou a ter um partido chamado O Aluguel é Desgraçado de Caro cujo irascível fundador, Jimmy McMillan, concorreu como candidato a prefeito e a governador, na década passada.

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Estar ou morar em Nova York custa caro, como sabem os estimados 800 mil turistas brasileiros que aqui aportaram em 2017. Assim, não causou surpresa a reação indignada com o anúncio do Museu Metropolitan sobre a cobrança de ingresso a partir de 1.º de março. 

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O MoMA, o Whitney e o Guggenheim cobram entre US$ 22 e US$ 25 pela entrada de adultos, mas o visitante do Metropolitan tinha, desde a década de 1970, o direito a entrar de graça. Este fato vai surpreender muitos dos que fizeram fila nos guichês do museu da 5.ª Avenida e não prestaram atenção ao aviso de “sugerido” acima dos preços.

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Até 2016, o aviso dizia, em letras minúsculas, que o preço era “recomendado”, o que escapava especialmente a turistas estrangeiros. Um grupo de turistas moveu uma ação contra o museu por confundir os visitantes, perdeu, mas obteve a mudança dos avisos. O acesso grátis foi estipulado em 1878 porque o Met ocupa de graça um terreno que pertence à cidade. O contrato de aluguel foi modificado, em 2013, com a previsão de que, “se necessário”, haveria cobrança de ingresso, desde que aprovada pela cidade.

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A repercussão do processo e a mudança no aviso dos guichês pesou na bilheteria do museu mais popular de Nova York e um dos mais visitados no mundo. Em 2004, 63% dos visitantes do Met pagaram o preço máximo “recomendado”. Em 2017, só 17% pagaram o preço máximo “sugerido” de US$ 25. A cidade, dona do terreno no Central Park, e que subsidia 9% do orçamento operacional de US$ 305 milhões por ano, aprovou a cobrança, em troca de diminuir o subsídio. A partir do dia 1.º de março, o ingresso vai custar, para não residentes no Estado de Nova York, US$ 25 para adultos, US$17 para idosos e US$ 12 para estudantes. Crianças de menos de 12 anos entram de graça. 

A direção do museu estima que os pagantes serão 30% dos visitantes e vão gerar uma receita calculada entre US$ 6 e US$ 11 milhões. O museu opera, além do prédio principal na 5.ª Avenida, o Met Breuer, no antigo prédio do Museu Whitney, na Avenida Madison, e o Cloisters, o museu especializado em arte medieval europeia que fica no parque Fort Tryon, na ponta norte da ilha de Manhattan. Os três locais receberam mais de 7 milhões de visitantes em 2017.

A reação negativa à decisão de cobrar ingresso partiu de influentes críticos de arte em Nova York. Roberta Smith e Holland Cotter, do New York Times, foram os primeiros. Cotter lembrou que o Met gastou recentemente US$ 65 milhões em fontes inscritas com nomes de doadores, um projeto de renovação que não foi bem recebido entre críticos. Alexandra Schwartz, da revista New Yorker, disse que a cobrança de ingresso “diminui a cidade de Nova York” porque o Met não pode se comparar aos outros museus na extensão e âmbito da coleção e conta, desde o século 19, com o apoio dos contribuintes nova-iorquinos.

No começo de 2017, o museu perdeu seu presidente, Thomas Campbell, em meio a rumores de comportamento indevido e má gestão. Campbell havia deixado um déficit anual de quase US$ 40 milhões. Mas as finanças da instituição melhoraram e o déficit deve ser superado até 2020.

Um ponto comum das críticas foi o método para isentar os residentes do Estado. Não existe carteira de identidade federal nos Estados Unidos e a identidade comumente aceita é a carteira de motorista. O museu diz que vai aceitar também alguma conta como a de luz ou telefone como prova de residência. E os imigrantes sem documentos? Será que vão ser afugentados do Met?

Na quinta-feira, 11, o museu recebeu suas multidões habituais, atraídas neste inverno por duas das mais importantes exposições em cartaz na cidade. Apesar do sucesso, a sublime mostra Michelangelo: Desenhista Divino, não vai ser prorrogada além de 12 de fevereiro. A retrospectiva do pintor britânico David Hockney vai até o dia 23 de fevereiro.

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