Das pranchetas ao piano, as muitas faces de Chico

Aprender a tocar o instrumento é novidade para o compositor, que queria ser arquiteto e tem a obra analisada em livros de partituras e a biografia recontada

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

28 Março 2009 | 00h00

A fabulosa obra musical de Chico Buarque, bem como seu histórico de vida, delineado pela discrição, já são quase de domínio público, de tanto que foram amplamente explorados e divulgados. Uma nova publicação, porém, destaca detalhes interessantes, além do já sabido. Em edição bilíngue (português e inglês), o Cancioneiro Chico Buarque (Jobim Music) é composto de três volumes: um perfil biográfico escrito por Regina Zappa, autora de outros dois livros sobre o compositor e escritor, e dois songbooks, com partituras para violão de 124 de suas principais canções, e análise musical brilhante feita pelo crítico Lorenzo Mammi. Os três livros são vendidos numa caixa (por R$ 272) ou separadamente, por R$ 127 (biografia) e R$ 105 (cada volume de partituras, que cobrem as produções de 1964 a 2008). Os volumes de partituras trazem as capas de todos os discos do autor de Construção e alguns manuscritos de letras. Ricamente ilustrada, a biografia tem fotos antológicas (muitas inéditas, da família), além de reproduções de textos e desenhos antigos de Chico, a correspondência datilografada entre ele e Vinicius de Moraes (sobre a letra de Valsinha), bilhetes de Zuzu Angel (a quem ele dedicou a canção Angélica). Mammi observa no prefácio do songbook como é difícil "estabelecer quem está falando" numa canção de Chico. "Mesmo quando o lírico não é um personagem construído pela própria canção, o que acontece com frequência", diz ele citando Quem te Viu, Quem te Vê, Partido Alto, Bye Bye Brasil e Biscate, "para uma compreensão plena é quase sempre necessário imaginar uma narrativa ou uma situação que a canção não explicita, senão por referências indiretas." Não é só o Chico Buarque letrista, no entanto, que é valorizado. As partituras estão aí para os especialistas e jovens músicos se aprofundarem e para reforçarem a análise de Mammi sobre o sofisticado melodista que Chico é, e como sua música se foi transformando ao longo dos anos. Em grande parte, a biografia se concentra em detalhes da vida de Chico nos anos 60, em São Paulo, na Rua Haddock Lobo, de onde ele via passar a banda que inspirou seu primeiro êxito popular. Depois, a ligação com o teatro, a censura, as canções de cunho político nos anos 70, o exílio, paralelamente à solidificação da obra, as incursões literárias dividindo espaço com a música em ciclos de diversidade criativa (leia frases ao lado). O Chico que foi estudar arquitetura porque queria ser como Oscar Niemeyer chegou a desenhar mapas de três cidades imaginárias, uma das quais, feita em 1970, está reproduzida no livro. "Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim", declarou. Chegou a pensar em ser diplomata por causa de Vinicius e, depois do impacto de Chega de Saudade, "cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinicius de Moraes". As novidades estão no capítulo final, intitulado O Artista se Reinventa. Recentemente, como conta Regina no perfil, Chico reformou o apartamento e acomodou na sala o piano de cauda que foi de sua avó, decidido a finalmente aprender a tocar o instrumento. Tom Jobim chegou a recomendar que desistisse da ideia.

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