Costurando o passado lúdico da TV

Novos programas à vista, TV Cultura cataloga e restaura acervo de figurinos

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

04 Outubro 2007 | 00h00

Em vez de abrir um baú de memórias, que tal abrir o guarda-roupa do Júlio de Cocoricó? Esta também é uma das propostas de Infância e Fantasia. Enquanto a reportagem do Estado acompanhava os últimos trabalhos de montagem da exposição, em vez de cheirando a guardado, o cheiro era de novidade, que saía das gavetas coloridas do guarda-roupa, das frutas da árvore da Ilha Rá-Tim-Bum (de 2005) e dos figurinos novinhos em folha. Todos coloridamente contrastando com o austero prédio da Caixa Cultural, na Praça da Sé, espaço que abriga também outras exposições e sua programação leva ao Centro o público jovem que ainda não conhece o tesouro arquitetônico da cidade. Além dos figurinos, Infância e Fantasia leva para a Caixa instalações e croquis que mostram como eram os antigos programas que construíram a fama da Cultura como uma das melhores produtoras de programação infantil do mundo. RETOMADA - Antes de voltar a percorrer a exposição, vale lembrar que essa fama da emissora andou em baixa no início dos anos 2000, quando a produção caiu drasticamente. De olho na recuperação de um de seus carros-chefes, a Cultura não só reformulou seu núcleo infantil, que agora conta com uma centena de profissionais, como inaugurou a TV Rá-Tim-Bum e trabalha na produção de novos programas, como o já citado Vila Sésamo, que em sua segunda fase vai ganhar elenco e alguns quadros produzidos no Brasil. Na segunda, dia 9, estréia mais um dos novos formatos. Pé na Rua vai ao ar de segunda a sexta, às 12h30, e será uma agenda cultural para o público jovem. Versão infanto-juvenil do Metrópolis, o novo programa vai ser todo rodado em locações e funcionar como um guia para o público de 10 a 17 anos, que geralmente não encontra dicas de fato culturais na TV convencional. Vale lembrar que programas sobre artes e comportamento não são novidade nas TVs abertas da Europa. Em países como a Dinamarca, um dos maiores e melhores produtores de conteúdo infantil do mundo, há até telejornais especialmente para jovens. Por aqui, o Pé na Rua promete oxigenar esse cenário. Ainda como parte da movimentação do setor infantil, em breve novos quadros do X-Tudo vão ao ar. O programa marcou época nos anos 90 e suas reprises ainda têm boa audiência. Por falar em reprise, ainda que restrita (já que é canal pago), a TV Rá-Tim-Bum também exibe clássicos como Castelo (que em breve vai virar desenho animado), Glub-Glub (que também já voltou repaginado à grade da Cultura) e até o Bambalalão. ARTESÃOS - De volta à Infância e Fantasia: é justamente um dos figurinos de uma das mais famosas apresentadoras de Bambalalão que ilustra bem o modo de produção dos infantis da emissora. ''''Enquanto estávamos recatalogando tudo, descobri que um dos figurinos usados pela Silvana Teixeira em Bambalalão virou a calça da Sherazade (a atriz Raquel Barcha) de X-Tudo. Aqui tudo sempre foi feito de modo artesanal. Tudo é reaproveitado. Mas há figurinos que não podem ser perdidos'''', comenta a curadora Isabela Teles. Sherazade também é um dos destaques da mostra e ''''sua história'''' serve de lição. Mais que exibir ao público um acervo rico em histórias, catalogar e conservar os objetos de cena da TV Cultura é crucial para a história da própria TV brasileira. ''''Temos uma sala grande para conservar o acervo. Mas não em condições ideais. Como nunca houve catalogação, dependemos exclusivamente da memória de quem trabalhou nos programas'''', conta. ''''Nosso medo era que esse tipo de reaproveitamento, que existe muito em função da pouca verba, estragasse o acervo. Vimos que os mais jovens da equipe descartariam objetos que não podem ser descartados. Por isso, procurei o Centro de Memória da Fundação Padre Anchieta e pedi um projeto de recuperação'''', explica Isabel. Infelizmente, alguns figurinos foram perdidos e tiveram de ser recriados. ''''De Rá-Tim-Bum para cá, tudo foi guardado com mais cuidado. Por isso, o público da exposição vai encontrar mais figurinos recentes'''', conta a curadora. Já Bambalalão e Catavento sofreram mais. ''''Buscamos os desenhos originais de Bambalalão e, a partir deles, refizemos três figurinos, do Poropopó, da Gigi e do Tic Tac.'''' Para terminar, é bom saber que existe um projeto de museu permanente da TV Cultura. Seria mais que bem-vindo.

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