© Photothèque R. Magritte / Banqued'Images, Adagp, Paris, 2016
© Photothèque R. Magritte / Banqued'Images, Adagp, Paris, 2016

Com nova exposição em Paris, René Magritte se consolida como filósofo da arte moderna

Artista morto em 1967 tem nova abordagem de sua arte apresentada no Centro Pompidou

Sheila Leirner, Especial para O Estado de S. Paulo

25 Setembro 2016 | 03h00

PARIS - Até agora René Magritte (1898-1967) foi um pintor maior. Com a abordagem inédita de sua obra em A Traição das Imagens, surpreendente exposição inaugurada esta semana no Centro Pompidou (até 23 de janeiro), aprendemos que ele é também um filósofo maior da arte moderna. Mais de uma centena de quadros e documentos dispostos em cinco salas temáticas, por ordem analógica e não cronológica, revelam a sua ambição de expressar pensamentos da forma mais fina possível. Racionais e rigorosos - jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários - os trabalhos de Magritte são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.

Depois de mostrar "outros" Munch, Matisse, Duchamp e Klee, o Pompidou prossegue a sua habitual desconstrução das ideias feitas sobre artistas e suas obras. O que reafirma esta instituição como uma das únicas do mundo, talvez, que hoje exerce a história e a crítica da arte como se deve: longe do consenso e próxima da dúvida. 

Parafraseando o mestre, "esta exposição Magritte não é uma exposição Magritte". Ou seja, o que parecia surrealista - como fizeram acreditar as mostras do MoMA em Nova York, da Fundação Menil de Houston, do Art Institute de Chicago e tantas outras (não faltam mostras sobre ele no mundo) - nem é tão surrealista assim. Se Breton, odioso, ordenou que a mulher de Magritte tirasse o crucifixo do pescoço provocando a ruptura entre os dois, foi talvez porque logo viu que este não era seu colega de ismo. 

De fato, a obra de René Magritte é muito mais complexa do que se estivesse apenas sob as forças psíquicas irracionais do automatismo, sonho e inconsciente. Tão plena de ideias que hoje é possível estabelecer relações entre a sua pintura e a arte conceitual de Joseph Kosuth que, inclusive, concebeu uma obra monumental em sua homenagem. Um mural de signos e letras em relevo de cerca de 30 metros, que se encontra à entrada da exposição. Assim, o curador Didier Ottinger deu preferência a obras tardias, menos conhecidas e prezadas pelos especialistas, porém mais apreciadas pelos artistas contemporâneos. "Foi preciso que eu descobrisse por mim mesmo que o pensamento é a única luz", escreveu Magritte em 1953. 

O fato é que a sua luz só podia brilhar quando criava perturbação e conseguia acusar os enganos da arte e os lugares-comuns da linguagem. A "traição" é justamente a fascinação do artista pela simulação, a que conhecemos por exemplo sob o nome de "Ceci n’est pas une pipe" que segundo ele "não é um cachimbo (pipe) pois ninguém pode fumá-lo". A "imagem trai" pois enquanto pensamos que ela é o espelho do objeto, é apenas a indicação dele, a sua ideia, o simulacro. Até a imitação do mundo real não escapa, ele a desconstrói completamente. Cada trabalho de Magritte é um ardil para os olhos e uma ironia para o cérebro. Nenhum deles é ou significa o que parece ser ou significar. Nem à primeira vista, nem depois. Na verdade, no terreno movediço e incerto onde se instalam as ilusões, em meio às desconexões e desacertos, é o espectador que inventa as suas telas.

O percurso é precedido por um retrato do artista enquanto filósofo, lembrando que este foi um leitor de Heidegger, Merleau-Ponty e Foucault, com quem manteve correspondência, assim como com Alphonse de Waelhens e Chaim Perelman, nos anos 1950. À paixão filosófica junta-se autobiografia e humor negro. Magritte não é um poeta, não cria enigmas, não fabrica onirismos, não brinca com o fantástico, não flerta com o simbolismo, os seus motivos são cruéis: objetos do cotidiano, guarda-chuvas, cortinas, sombras, palavras, corpos em pedaços, chamas. A mostra os dispõe dentro de uma genealogia erudita, longe do surrealismo e, algumas vezes sutilmente, contra ele. Saímos pensando que uma Bienal inteira de boas intenções e ideologias, sem arte, certamente não valerá o prazer de uma só tela exposta aqui. Apesar e talvez por causa do seu lado sombrio, quanto mais entramos na sua arte do raciocínio com método, Magritte - ele - nos faz rir. E com o riso iluminador e liberatório da ironia socrática. 

 

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