CirKus brilha na grande tacada final

Com Neneh Cherry, o grupo encerrou em grande estilo o evento anteontem, divertindo 500 pessoas no Auditório Ibirapuera

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

No ano passado, no Rio, o Bad Plus saiu do TIM Festival etiquetado como ''''o melhor show que ninguém viu''''. Este ano, o rótulo vai para o CirKus, coletivo britânico que trouxe de volta a estupenda Neneh Cherry, dez anos depois de sua memorável apresentação no Free Jazz Festival, e encerrou a fase paulista desta edição em grande estilo. ''''Ninguém viu'''' é força de expressão, pois havia cerca de 500 pessoas anteontem no Auditório Ibirapuera, que se divertiram com a boa música e o senso de humor de Neneh e sua mais nova trupe. Na grande tacada final, o CirKus confirmou os bons indícios apontados por seu único álbum, Laylow (2006). Veio dali a maior parte dos temas apresentados por ele no show de anteontem. Já no bis, outra boa surpresa: uma reinterpretação de Old Man, do canadense Neil Young, com dedicatória ao autor. Sempre divertidos e animadíssimos para uma segunda-feira, tocaram com garra, brincaram de falar português e no fim queriam até saber onde havia uma festa, pois não queriam ir embora sem ouvir samba. Também fizeram outras ''''homenagens'''' nada lisonjeiras. Fools (tolos), que repete algumas vezes a palavra frustração, foi dedicada ''''ao presidente do Brasil''''. Quem levou You''''re Such an Asshole foi George Bush e a imprensa carioca (ironizada várias vezes durante o show), por ter se equivocado em relação a essa ''''homenagem'''' durante o show do Rio. O ''''asshole'''' (que na tradução mais polida pode significar ''''imbecil'''') não seria para Bush, mas acabou sendo. ''''Ora, todo mundo sabe que Bush é um c...'''', ratificou ela aqui. Neneh continua em forma, tanto vocal como física, cantando e dançando muito, além de esbanjar simpatia. Seus companheiros de trabalho não ficam atrás. O tecladista e produtor Burt Ford (que também assina Cameron McVey e foi o responsável pelo renascimento de Neneh, com quem é casado) é o fundador da banda com o produtor e guitarrista Matt Kent, conhecido como DJ Kamil. A sintonia dos três na concepção sonora é notável. O que a cantora chama de broken soul tem elementos de reggae, folk, hip-hop, dub, hard rock, trip-hop. Se lembra às vezes o Massive Attack, não é por acaso. McVey (que também se destaca pelos vocais em falsete) colaborou com o grupo no histórico álbum Blue Lines (1991). Mas o CirKus segue trilha própria, e ao vivo, naturalmente, produz som mais encorpado do que no CD, com a adição de baixo e bateria de pulso firme. A vocalista Lolita Moon é uma revelação e, apesar de recém-saída da adolescência, está bem preparada para fazer música de gente grande, espontânea e honesta, com sangue e cérebro - como seus parceiros de banda. Timbalanço RESCALDO - Quem abriu a última noite do TIM Festival em São Paulo foi o compositor, tecladista e produtor Craig Armstrong. O músico escocês ganhou notoriedade por seu estilo moderno de criar arranjos orquestrais, além de diversas trilhas para cinema e projetos de música eletrônica experimental, como o Winona, que apresentou no festival ao lado do baixista Scott Fraser. Com auxílio de duas cantoras (Laurence Ashley e Lucy Pullin), a dupla alternou temas instrumentais e cantados, mais contemplativos, do que dançantes. Não decepcionou. A MAIOR E O MENOR - Estatura não é documento e, como dizia aquele antigo jingle, quem não é o maior tem de ser o melhor. Levando em conta que muita gente foi embora depois do show dela no Anhembi, a baixinha Björk teve o maior público do festival em São Paulo: 23 mil. Já o encorpado alemão Daniel Haaksman, atingiu uma marca digna do livro dos recordes negativos: em constante esvaziamento, sua performance no clube The Week, na sexta-feira, à base de eletro e funk carioca, chegou a contar com apenas duas pessoas na pista. VELHA RIVALIDADE - São Paulo e Rio mais uma vez confrontam suas diferenças. Nos bastidores do festival, alguns artistas (até os que não estavam no elenco desta edição) se queixaram da crescente dificuldade de tocar no Rio, por falta de bons espaços e por causa da falação excessiva do público. Vai daí que, por adequação de estilos e ambientes, shows mais sofisticados como os de Antony & The Johnsons, Cibelle e Cat Power pegaram melhor em Sampa. Já Daniel Haaskman e o engodo Juliette Lewis ganharam mais a crítica e as platéias cariocas.

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