Christian Cravo
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Christian Cravo expõe imagens de uma África poética em São Paulo

Fotógrafo passou por sete países do continente para registrar as 25 imagens de sua exposição 'Luz e Sombra', que será aberta hoje, dia 5, na Dan Galeria

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2017 | 06h00

Em janeiro de 2010, o Haiti foi abalado por um terremoto que deixou mais de 1 milhão de pessoas desabrigadas e 200 mil mortos. Entre os últimos estavam dois amigos do fotógrafo Christian Cravo. Poucos meses antes, em agosto de 2009, seu pai, o também fotógrafo Mário Cravo Neto, morrera, aos 62 anos, vítima de um câncer de pele. Essas duas tragédias, segundo o fotógrafo, respondem pela ausência da figura humana em sua exposição Luz e Sombra, que a Dan Galeria abre neste sábado, 5, com 25 imagens captadas na África.

“Foi o Haiti e a morte de meu pai que me levaram ao continente africano”, resume Christian Cravo, um nome internacionalmente reconhecido, aos 43 anos, que passou pela primeira república negra do mundo para registrar a vida cotidiana dos haitianos antes que o terremoto de 2010 agravasse a situação social do país da América Central. A morte do pai, que o iniciou na fotografia, acirrou esse sentimento de exílio num território que já não era mais o dele – Christian, criado na Dinamarca, só voltou ao Brasil já adulto, aos 22 anos.

O pai, Mário Cravo Neto, como se sabe, foi não só um grande fotógrafo, mas uma espécie de etnólogo empenhado no registro da gente e dos cultos religiosos da Bahia. Christian seguiu seus passos, documentando igualmente o êxtase e o transe dos fiéis, só que no Haiti, para ele um retorno ao jardim do Éden. Em Luz e Sombra, a paisagem árida das dunas africanas, hostil à presença humana, lhe pareceu adequada para traduzir o sentimento de vazio provocado pela ausência do pai. “Ele e meu avô se permitiram entrar no território um do outro, mas eu sou nórdico e tive de buscar na África uma outra referência.”

Christian, que começou com fotografia documental, acabou descobrindo nessa paisagem africana, antediluviana, uma possibilidade de reinventar todo um continente que dominou o imaginário de seus ancestrais – seu avô, o escultor baiano Mário Cravo Junior, hoje com 94 anos, foi aluno de Mestrovic e um modernista que incorporou elementos da cultura popular e religiosa de origem afro na Bahia. 

“As fotos da exposição não são exatamente a África, mas uma visão poética do continente, que comecei a registrar pelo lado ocidental, justamente aquele que faz o elo com o Novo Mundo”, observa o fotógrafo, que passou por sete países africanos para construir sua “paisagem abstrata”: Botsuana, Congo, Namíbia, Quênia, Tanzânia, Uganda e Zâmbia.

Essa paisagem abstrata, registrada em livro,  por vezes remete (involuntariamente) às pioneiras experiências com o corpo do húngaro Kertész ou com as collages digitais do contemporâneo alemão Wolfgang Tillmans. Christian, contudo, não se identifica com nenhum dos dois. Nunca se preocupou com escolas, acrescenta. “A minha, claro, foi a analógica, avessa aos excessos da época em que vivemos.” Ele condena a hiperbólica produção de imagens e a pós-produção que caracteriza o mundo digital. “Ela se caracteriza pela verborragia, pela tentativa de substituir a palavra pela imagem, o que não é bom.”

A pintura, diz, marcou sua trajetória muito mais que a fotografia, garante. “Se meu pai não fosse fotógrafo, certamente eu jamais seria um”, revela, justificando sua opção pelo preto e branco como uma estratégia para induzir a imaginação do espectador. “Essa visão monocromática remete à ancestralidade”, diz. “Minhas fotos em cores seriam terríveis”, avalia.

LUZ E SOMBRA

Dan Galeria. Rua Estados Unidos, 1.638; 3083-4600. 2ª a 6ª, 10h/18h. Sáb., 10h/13h. Abertura hoje, 10h. Entrada gratuita. Até 28/8.

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