'O Pintor e a Modelo'
'O Pintor e a Modelo'

CCBB abre mostra com 90 obras de Picasso, Miró, Dalí e outros

Coleção de arte moderna veio do museu Reina Sofía, de Madri

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

22 Março 2015 | 03h00

Na mais recente parceria entre o Centro Cultural Banco do Brasil e a Fundação Mapfre, Picasso e a Modernidade Espanhola, exposição que será aberta na terça, 24 (para convidados), o centro das atenções, como sugere o título da mostra, é Picasso, mas há nela artistas que foram tão ou mais populares que o mestre, entre eles Salvador Dalí, surrealista com notável talento para o marketing.

Dividida em oito módulos, com 90 obras pertencentes ao acervo do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, a exposição estabelece relações entre os principais arautos da modernidade artística na Espanha, como Miró, Juan Gris, Julio González e Antoni Tàpies, além de propor uma nova leitura do trabalho de artistas diretamente associados a Picasso, seja por afinidade eletiva ou artística, como Rafael Barradas, nascido no Uruguai, e a espanhola María Blanchard.

Entre os outros artistas selecionados e menos conhecidos do público brasileiro, o curador espanhol Eugenio Carmona, professor de História da Arte da Universidade de Málaga, destaca Alberto Sánchez, Benjamín Palencia, Francisco Bores, José Guerrero, Maruja Mallo e Pablo Palazuelo. 

Os módulos dedicados ao trabalho de Picasso constituem, porém, o alicerce da mostra, destacando-se os oito desenhos preparatórios de sua obra-prima, Guernica (1937), entre os quais figura a cabeça do cavalo que domina o centro do político painel antifascista contra o bombardeio da cidade espanhola, em abril de 1937, por aviões alemães, em apoio ao ditador Franco.

Além desses desenhos, Picasso está representado por telas icônicas que definem fases históricas, entre elas Cabeça de Mulher (1910), Busto e Paleta (1932), Retrato de Dora Maar (1939) e O Pintor e a Modelo (1963), uma das várias versões que fez do tema. A relação dos artistas espanhóis com o Brasil é antiga. A Bienal de São Paulo, lembra o curador, premiou Antoni Tàpies e Jorge Oteiza e trouxe Guernica em sua segunda edição (1953).

Quando o Palazzo Strozzi de Florença exibiu a mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, sua repercussão internacional impressionou até seu curador, Eugenio Carmona. Comentaristas, segundo ele, consideraram que a exposição, aberta a partir de terça, 24, para convidados, e quarta, 25, para o público, no CCBB, promovia uma verdadeira “revisão do conceito de arte moderna”. Picasso e os outros artistas presentes na mostra representariam, segundo esses comentaristas, arautos de uma modernidade que já não acreditava mais nas relações centro-periferia, “mas na arte moderna como um processo dinâmico e múltiplo”.

É verdade que Picasso, nascido em 1881, em Málaga, na costa da Andaluzia, estava decidido a ser maior que sua cidade, então uma província fundada pelos fenícios, nem que para isso tivesse de esfregar a “primitiva” arte africana na cara dos franceses, chocando burgueses escandalizáveis com suas prostitutas angulosas de Les Demoiselles d’Avignon (1906/7). Estava igualmente destinado a superar o próprio pai, o também pintor (mediano) Jose Ruiz Blasco, que, segundo a lenda, entregou seus pincéis e a paleta ao filho, ao constatar que jamais pintaria como ele. Como a cidade que adotou aos 14 anos, Barcelona, Picasso tinha o sangue separatista nas veias. Não queria ser periférico.

Vale lembrar que Barcelona sempre desejou concorrer com as grandes capitais europeias da arte - como Paris e Londres. Foi em Barcelona que Picasso descobriu a modernidade, mais exatamente no quartel-general da vanguarda catalã, o café Els Quatre Gats, frequentado por pintores como Isidro Nonell, de vocação impressionista.

É claro que os historiadores vão lembrar o impacto que teve a pintura de franceses como Manet ou do norueguês Munch sobre Picasso quando ele partiu para Paris. O pintor, de fato, deixou-se influenciar por todos eles, mas, da mesma forma que emulou o Munch da fase final e tomou de assalto a barca cubista de Braque, também se livrou da bagagem com a mesma facilidade, recriando o cubismo a seu modo. “Ao selecionar cada peça de Picasso para a exposição, consideramos que cada uma delas serviria para destacar um aspecto desse artista capaz de renovar a si mesmo dentro do panorama da arte moderna”, justifica o curador Carmona.

O diálogo de Picasso com seus contemporâneos espanhóis é o que mais importa nessa exposição em que o público vai encontrar pontos de afinidade entre Juan Gris e Oteiza ou entre Julio González e Miró, garante o curador. Ou entre o próprio Picasso e Maria Blanchard, que também estudou em Paris e foi influenciada pelos cubistas (Lipchitz, Gris), como prova a tela Mulher com Violão (1917), reproduzida nesta página ao lado de uma pintura de Picasso, Mulher Sentada e Apoiada sobre o Cotovelo, realizada anos depois (em 1939). Curiosamente, as duas estão na mesma posição. Mas Blanchard figura ao lado de Gris no módulo Ideia e Forma.

Já o encontro de Dalí com Picasso em 1926 produziu efeitos mais devastadores. Prova dessa devastação é a tela Arlequim, na mostra, pintada por Dalí justamente nesse ano em que Picasso, associado aos surrealistas e apadrinhado por Breton, produz uma obra insólita, Violão, com um trapo de aniagem colado à tela (um pouco à moda dos dadaístas). O Arlequim de Dalí na exposição é um Picasso reciclado da época em que o cubista pintava mulheres sentadas divididas em duas - o que ele chamava de “um ideograma da neurose, da ameaça e da dominação”.

Com Miró, que Picasso ajudou quando este chegou a Paris, em 1919, as relações foram mais francas. Picasso tinha consciência da solidez da pintura do amigo, que Breton definiu como “a mais importante contribuição para o desenvolvimento da arte surrealista”. Tanto que ajustou sua obra posterior ao modelo. Ele foi influenciado, mas influenciou. Prova disso é Barradas com sua tela Homem no Café (1923), picassiana até a medula.

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PICASSO E A MODERNIDADE ESPANHOLA

CCBB. R. Álvares Penteado, 112, metrô Sé, 3113-3651. 4ª a 2ª, 9 h/21 h. Grátis. Até 8/6. Abertura na 3ª, 24, 19h30

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