Cabrita Reis abre sua primeira exposição no Rio

Artista português presta tributo a brasileiros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

07 Setembro 2014 | 03h00

Artista português mais lembrado por curadores de importantes mostras internacionais como a Documenta de Kassel e a Bienal de Veneza, Pedro Cabrita Reis abriu ontem sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro, Alguns Nomes, na Mul.ti.plo Espaço Arte. Nela estão reunidos 27 objetos que integram uma única obra. Cabrita Reis presta homenagem a artistas brasileiros que conheceu em suas diversas viagens ao País - entre outras mostras, ele participou da 24.ª Bienal de São Paulo (a da Antropofagia, em 1998) e montou, em 2010, a instalação Deposição no octógono da Pinacoteca do Estado, impressionante interpretação de um tema muito explorado por pintores desde o Maneirismo, o da deposição do Cristo crucificado. A Deposição de Cabrita Reis era uma viga sobre uma chapa de ferro, que evocava tanto um corpo morto sobre a mesa como a própria construção do edifício projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1905.

Os objetos e as instalações que Cabrita Reis cria são desestabilizadores. Desafiam a ordem formalista e escapam às tentativas de categorização, sendo obras que invariavelmente "submetem o espaço a uma metamorfose", como ele mesmo gosta de dizer. As peças que compõem Alguns Nomes não fogem à regra. São lâmpadas fluorescentes que trazem inscritos 27 nomes de artistas de diferentes gerações, do paraibano Antonio Dias aos cariocas Waltercio Caldas e Cildo Meireles, passando pelo paulista Paulo Pasta e o pernambucano Tunga, todos amigos desse criador que, a partir de objetos familiares e banais apropriados por ele, provoca com seu jogo metafórico um sentimento de estranheza no espectador.

Autobiográfico. "Vasculhei minha relação com a história da arte brasileira e acabei construindo essa espécie de galáxia com meus amigos", resume. Concebido em duas partes, sendo a primeira uma escultura com lâmpadas fluorescentes, o trabalho traz ainda uma série de prints em que Cabrita Reis volta a inscrever os nomes dos artistas - e também o dele, uma vez que a sua trajetória é marcada por obras de cunho autobiográfico, como os enigmáticos autorretratos em que aparece de olhos fechados - "parece uma contradição, mas eles propõem um olhar do artista sobre si mesmo". Um olhar subjetivo, enfim, como o da obra Self-Portrait in the Studio (2008).

Não custa lembrar que ele nasceu numa casa que, mais tarde, foi transformada numa galeria de arte, reforçando a desconfiança de que Cabrita Reis é mesmo um predestinado - ou melhor, condenado a olhar para o interior dela e se projetar em suas paredes. A casa, segundo o artista, é a "concepção de um modelo de universo que se pode medir" - daí a profusão de obras suas relacionadas à construção, o que levou a crítica a associar, por equívoco, o nome do artista à arquitetura. Não é o caso. Apenas para ilustrar, ele assinou há 14 anos uma obra chamada A Room for a Poet, em que um muro de tijolo sugeria duas aberturas (uma porta e uma janela) que não davam acesso a lugar nenhum, contrariando as mais elementares leis de arquitetura. 

Cabrita Reis usa a construção justamente em oposição à arquitetura, definindo-se como um "recoletor" de coisas que estão no mundo e que vai agrupando sem hierarquizar os objetos. "Vou recolhendo o que os outros esqueceram ou deixaram para trás”, costuma dizer. Foi assim que ele realizou sua provocativa intervenção na Bienal de Veneza passada (2013), levando para o Palazzo Falier da cidade italiana partes que sobraram de antigos trabalhos recolhidos em seu ateliê - tubos de alumínio, cabos e lâmpadas fluorescentes, além de fotos, desenhos e pinturas (ele começou sua carreira pintando). A intervenção no palazzo veneziano, apropriadamente intitulada A Remote Whisper, era um difícil exercício de percepção proposto aos visitantes do Falier para estabelecer sintonia com o inventário do mundo feito por Cabrita Reis.

No singular. Há quem, inutilmente, tente associar esse procedimento de agrupar materiais não convencionais - ou não considerados "nobres" - aos mecanismos usados pelos artistas da arte povera nos anos 1960, e, antes, por dadaístas como Marcel Duchamp, mas o artista português descarta a filiação a movimentos. Era uma criança quando os artistas da povera chocavam burgueses com obras feitas de trapos, jornais e cordas (ele completou 58 anos na sexta). 

"Conjugo tudo na primeira pessoa do singular", diz, para mostrar que não descende nem dos artistas da povera nem da arte pop - lembrando que Rauschenberg também fazia assemblages. “Não tenho qualquer afinidade com a arte pop para além do reconhecimento do que ela representou no século 20."

Pintor. Cabrita Reis deixa claro que vê o mundo como um imenso depósito do qual ele pode tirar, rigorosamente, tudo o que precisa, seja uma caixa ou uma cadeira que encontra na rua. "Mas eles não pertencem ao tempo em que a arte povera vingou." Ele, de fato, começou sua carreira como pintor, nos anos 1980. Não abandonou a pintura, apenas transformou-a, usando plexiglass e chapas coloridas de acrílico no lugar de pincel e tintas.

"Eu, de fato, sou um pintor, mas não tenho na minha prática nenhuma limitação", diz. "Posso tanto fazer grandes intervenções em espaços públicos como pintar flores, que adoro." O artista, para ele, é um ser capaz de trilhar o caminho que outros percorreram sem esquecer que uma obra de arte é o resultado dessa massa crítica acumulada.

ALGUNS NOMES

Mul.ti.plo Espaço Arte. R. Dias Ferreira, 417, sala 206, tel. 21/ 2259-1952. Abre hoje, 12 h. 2ª a 6ª, 10 h /18h30. Sáb., 10 h/14h. Até 25/10.

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