Barbie aos 50, o mesmo tipo de garota

Tempos mudaram, mas a boneca faz aniversário hoje mantendo seu encanto

Mary Jo Murphy, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

09 Março 2009 | 00h00

Podemos esquecer que eu costumava enfiar lantejoulas em alfinetes e os espetava na sua cabecinha vazia de plástico? Ambas faremos 50 anos, Barbie, e proponho uma comemoração para nosso meio século de história em comum. Você pode usar brincos de aro (minhas orelhas não são furadas). Quero soprar as velinhas (você lembra do que aconteceu da última vez que você chegou muito perto das chamas). Os anos 60 e 70 foram anos realmente embriagantes para uma adolescente, não é mesmo, Barbie? Tantas turbulências sociais e mudanças de papel - a cabeça chegava a rodar (Eu sei que você sabe. Pare com isso.) Atribuo sua misteriosa calma e equilíbrio diante de tudo isto ao ano de 1959, o do seu nascimento: o Alasca foi incorporado à união poucas semanas antes da nossa chegada ao mundo; o Havaí alguns meses mais tarde. Foi o ano em que um tribunal federal de Nova York suspendeu a proibição do Departamento dos Correios de distribuir o romance O Amante de Lady Chatterley; o ano em que Fidel Castro tomou Cuba e A Noviça Rebelde estreou na Broadway. Desde o começo estava claro que você combinava mais com o tipo de garota que, como Maria, costuraria roupas espantosas com o pano berrante das cortinas em caso de necessidade, porque se viesse a revolução - qualquer revolução - você não teria ideia do que vestir. Até em 1959, preparavam-se grandes mudanças para as mulheres de todo o mundo. Mary Leakey encontrou a caveira do "homem que quebrava nozes" na Garganta de Olduvai. Evelyn Wood revelou seus truques para uma leitura rápida. Elizabeth Ann Seton foi elevada aos altares. Houve importantes conquistas: o monarca saudita decidiu permitir a educação para as meninas. E houve também revezes: as suíças votaram e rejeitaram uma emenda constitucional que permitia às mulheres votar e concorrer a um cargo público; as britânicas decidiram que era ilegal as prostitutas andarem pelas calçadas e elas então começaram a passear com cachorros para evitar serem presas enquanto procuravam clientes. Talvez esta última parte do folclore sobre 1959 lhe interessasse, afinal você foi feita à imagem de Lili, um brinquedo pornográfico alemão que passava o tempo vagabundeando e cuja imagem atraente enfeitava o painéis dos carros dos motoristas alemães para os quais era vendida. M.G. Lord a definiu como "uma fantasia teutônica" em sua biografia Para Sempre Barbie. Mas você ignorou tudo isto. Este esquema foi se desenvolvendo ao longo da década de 60, com os assassinatos, as marchas, a guerra; e os anos 70, com Gloria Steinem e Patty Hearst e finalmente Maggie Thatcher, época na qual finalmente alcançamos a maioridade. Você simplesmente não se importava com funerais, tumultos, manifestações pacíficas, a queima dos sutiãs ou os sequestros. Quando Nixon foi para a China, você foi para Malibu. Se um evento não tinha luvas e bolsa, não existia para você. Você não era a favor nem da escolha nem da vida, você era favorável à Barbie. Como você fazia isto, B? Como você conseguiu ficar fria como um melão fresco enquanto nós, filhas da guerra fria, nos agachávamos de baixo das nossas carteiras escolares durante os treinamentos para incursões aéreas? E no entanto, houve curiosas exceções, quando você se colocou à frente dos tempos ou reconheceu seus acontecimentos mais marcantes. A astronauta Barbie apareceu em 1965, quatro anos antes da descida na Lua. Será que Sally Ride tinha uma Barbie? Ela teria 13 anos então. E a Barbie Tempestade no Deserto apareceu logo depois da primeira Guerra do Golfo, com a aprovação do Pentágono. Talvez você lembrasse que Saddam Hussein surgiu no cenário internacional em 1959, quando aos 22 anos participou de um golpe fracassado contra o líder iraquiano que, por coincidência, havia dado ao Iraque sua primeira ministra do gabinete. Um dia desses, mamãe encontrou no porão a maleta com suas roupinhas , Barbie. Entre as que sobreviveram quase intactas estava um glamouroso casaco azul cobalto até a batata da perna, que ela havia tricotado. Será que ela cortou um pedacinho da sua estola de visom, um presente de sua mãe, para fazer a gola? Ela não se lembra. Talvez esteja na hora de doarmos todas estas tralhas de época para a Barbie da Recessão. Mamãe continua tricotando meias para meu marido. (Você nunca pôs um vestido de casamento. Será que errei em fazer você ir para a cama com Gumby?) Feliz Aniversário, Barbie. E cuidado com as chamas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.