As cores de Davenport chegam a São Paulo

Pintor inglês, revelado com Damien Hirst, faz primeira mostra na cidade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 12h00

Para sua primeira exposição individual no Brasil, que será aberta neste sábado, 23, na Dan Galeria, o pintor britânico Ian Davenport, 49 anos, criou uma tela de dimensões médias (103 x 158 cm), Colourcade: Buzz, que é quase uma síntese dos seus 25 anos de carreira. Nela, as coloridas e características faixas verticais de seu trabalho se dissolvem na base da tela, como se voltassem à forma primitiva das poças formadas pelo esvaziamento dos potes de tinta de seu ateliê. Vale lembrar que Damien Hirst, seu colega no Goldsmiths College of Art de Londres, que com ele formou a geração dos Young British Artists nos anos 1990 (Gary Hume, Fiona Rae, Sarah Lucas, Michael Landy), já notou essa capacidade de Davenport pintar o vazio como ninguém.

Foi justamente sua representação realista de um pote de tinta vazio, visto por Hirst em seu ateliê, em 1987, que selou a amizade entre os dois, antes da consagração de ambos na histórica mostra Frieze (1991). Hirst, o homem dos tubarões embalsamados, simplesmente identificou nas fileiras de potes pintados por Ian Davenport uma metáfora do fim da representação – tão cara à tradição pictórica inglesa quanto o chá das cinco.

Não se entenda por isso que Davenport seja avesso à pintura figurativa – ele que é, além de tudo, um ótimo retratista. Em São Paulo para a abertura de sua exposição, ele recebeu o Caderno 2 para falar desse e outros temas relacionados à mostra brasileira, que reúne 18 pinturas realizadas entre 1992 e este ano. Com uma formação sólida, Davenport, aliás, busca no passado referências para essas obras, inspirando-se tanto em pintores do século 15, entre eles Holbein, como nos expressionistas abstratos e na arte pop americana do século passado. Se vale um registro das inúmeras referências artísticas de Davenport, ela pode começar pelos velhos mestres, prosseguir com Van Gogh, passar por Albers, Jackson Pollock, Andy Warhol, Jasper Johns, Brice Marden e Ellsworth Kelly.

Ele assume recorrer a tudo o que tem às mãos para renovar a pintura, inclusive seringas, usadas no lugar do pincel para fazer escorrer a tinta por canaletas verticais que lembram as fisiocromias de Cruz-Diez e as tramas cinéticas de Soto. Essa, porém, não é uma apropriação indébita. Davenport faz questão de dar crédito aos seus mestres. Há na mostra brasileira, por exemplo, pinturas sobre madeira (dos anos 1990) cuja superfície brilhante produz um efeito similar ao observado nas telas negras de Ad Reinhardt, no limiar da visibilidade, refletindo a própria imagem do observador. Davenport já era, então, um pintor consagrado com o Turner Prize, o que não comprometeu sua humildade diante dos mestres – um colega seu ficou espantado como Davenport passou horas diante de uma tela de Albers só para aprender como o pintor alemão lidava com as sutis relações entre cromatismo complementar e contraste em sua série Homenagem ao Quadrado.

Na primeira monografia sobre sua obra, escrita por Martin Filler e publicada no ano passado, outras revelações surgem. Davenport fala sobre uma delas. “Impressionado com a anamórfica figura que está na base da pintura mais conhecida de Holbein, uma caveira distorcida pela ilusão ótica (estudada por David Hockney num livro), resolvi eliminar os dois personagens da tela Os Embaixadores e ficar só com as cores da cortina de fundo, acentuando a ambiguidade cromática.” Com isso, ele descobriu que sua paleta podia ser menos previsível, incorporando o verde-escuro e o preto característicos do artista alemão, além de usar faixas verticais no lugar de pessoas em sua radical interpretação.

A monografia de Filler compara a síntese dos temas de Holbein à apropriação que Stravinski fez de Bach em 1956. Para Davenport, a correspondência analógica entre pintura e música é pertinente. Baterista de uma banda, a Good Ol’ Hometown Boys, ele gostaria de fazer o que John Cage fez pela pintura de Rauschenberg e Jasper Johns. “Estou certo que o ritmo das faixas verticais é ditado por uma ordem rítmica musical interna, ou pelo acaso, como preferiria Cage.” Ele se compara a um compositor que usa cores no lugar de notas. Davenport já fez até pinturas baseadas em animações, como Os Simpsons, usando suas cores vivas, além de tomar emprestado a paleta de outros pintores (Matisse, entre eles) apenas para concluir que a pintura conserva sempre sua autonomia, a despeito da relação com outras artes. “Já reproduzi até o esquema cromático de uma cortina de plástico de uma kehab” (lugar onde se vende churrasco grego), revela, concluindo que seu ideal de espectador não é aquele fluente na história da arte, mas alguém que se deixa simplesmente seduzir pelas cores de sua pintura, o que não é difícil. Em Londres, milhares de transeuntes já se beneficiam do exuberante painel de 48 metros instalado sob uma ponte velha e decadente perto da Tate Modern. Virou marca registrada de Davenport e da beleza contemporânea. 

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