Divulgação
Divulgação

José Bechara e Frida Kahlo são algumas das mostras que abrem no Rio

Exposições estarão em vários locais, como o Centro Cultura dos Correios, CCBB e Paço Imperial

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2016 | 20h00

RIO - Walter Goldfarb tinha acabado de perder a mãe, Judith, judia lituana. Era 1997 e a tela Ela não gostava de Monet trataria da dor e da impossibilidade dela de lidar com a beleza da vida diante da melancolia deixada pelas dores do holocausto. A menina Judith vivera num campo de concentração e, mesmo já adulta, morando no Brasil com cinco filhos, as marcas do horror lhe pareciam indeléveis. O filho artista reproduziu na lona uma foto dela adolescente ao lado de representações em série de figuras judaicas deformadas caricaturalmente pelo antissemitismo alemão do início do século 20, transformadas por ele em escalpos de ratos.

Duas décadas depois, a tela intitula uma grande retrospectiva do pintor, em cartaz no Centro Cultural Correios (CCC). São 40 obras de grandes dimensões que revelam a evolução do vocabulário artístico do pintor, do qual fazem parte o bordado, aprendido na infância com uma babá costureira, e a aplicação de laca.

Seu inventário de técnicas, aprimorado com os anos, é para ser observado no detalhe e também de longe, ante a monumentalidade das obras. “A pintura é, também, um exercício de escaneamento, de leitura mesmo, muito rico. Desde o início, sempre abri a lona e fui ‘escrevendo’”, conta Goldfard.

Ela não gostava de Monet entrou em cartaz no fim de dezembro, mas só passadas as festas começou a receber mais público. No mesmo CCC, Roberto Moriconi (1932-1993), multiartista italiano radicado no Brasil, referencial na produção contemporânea nacional, também ganhou um panorama retrospectivo.

Tudo matéria de arte recebeu esse nome porque era assim que Moriconi se relacionava com o mundo e seu trabalho – uma frase sua, pinçada pela viúva, Giovanna Moriconi, curadora, é: “O artista é intermediário entre a potencialidade cósmica e a matéria trabalhada”.

Objetos, vídeos, desenhos e pinturas do acervo pessoal do artista compõem o mosaico, que permite enxergar em Moriconi o pioneirismo de sua produção, iniciada na virada dos anos 1950 para os 1960.

Como o CCC, praticamente todos os importantes espaços culturais do Rio programaram um começo de ano rico em novidades. No Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), abriu quarta-feira Guilherme Vaz: uma fração do infinito. O pioneiro da arte conceitual brasileira tem 50 anos de percurso inventariados, com destaque para sua vivência no interior do País, com povos indígenas - é apresentado o vídeo-concerto Música em Manaos, com a Orquestra Filarmônica Bielorussa e índios da etnia Gavião-Ikolem, composto e regido por ele em 2004, e sua participação nas vanguardas da década de 1970.

No dia 26, entra em cartaz também no CCBB Zeitgeist – a arte da nova Berlim, trazida pelo Instituto Goethe, com um recorte da poética de 29 artistas da atual cena da capital alemã. Pinturas, fotografias, instalações e performances transportarão o público à diversidade local. Na rotunda, ficará a instalação Tempo que corre e tempo estagnado, dos artistas Michael Wesely e Mark Formanek. O trabalho debate a questão temporal numa cidade histórica, destruída por bombardeios e renascida sempre de forma mais interessante. Um relógio de quatro por nove metros será construído aos olhos do público num período de 12 horas.

A produção recente de José Bechara está no Paço Imperial com Jaguares: trabalhos inéditos, entre eles, sete pinturas tridimensionais, frutos de pesquisas recentes sobre pintura. Numa das obras, Nos intervalos entre as coisas importantes, nos minutos à toa (2013), Bechara reproduziu sua cabeça em alumínio; a peça fica presa por um cabo e está inserida numa investigação sobre gravidade.

Talvez a mais aguardada seja a mostra Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México, que o Instituto Tomie Ohtake apresentou em sua sede em São Paulo para um público de 600 mil pessoas. No Rio, os 30 óleos de Frida (1907-1954) estarão na Caixa Cultural a partir do dia 29. Seis deles, autorretratos. Trabalhos de outras 14 artistas, como María Izquierdo e Sylvia Fein, relacionados ao pensamento de Frida, compõem a exposição.

Museu do Amanhã: em apenas 17 dias, 100 mil visitantes

No Museu do Amanhã, aberto há um mês na Praça Mauá, zona portuária do Rio, uma instalação multimídia e sensorial de Vik Muniz, Andrucha Waddington e o coletivo SuperUber convida à reflexão sobre os ciclos da vida por meio de fotografias em grande escala da criação e da destruição do Elevado da Perimetral.

A estrutura, aberta no Rio de Janeiro rodoviário de 1960, passava sobre a praça e foi implodida para as obras de revitalização da região, que incluíram o próprio museu e seguem em curso. 

Em seus primeiros 17 dias úteis de operação, o museu recebeu 100 mil visitantes, um volume mais de quatro vezes maior do que o esperado. As filas têm permanecido longas mesmo nos dias de sol forte - quase não há sombra - e a espera para entrar pode chegar a duas horas. A direção do museu esperava um público de 450 mil para o ano inteiro.

Mais conteúdo sobre:
Paço Imperial Frida Kahlo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.