André Penteado/Divulgação
André Penteado/Divulgação

André Penteado cria obras entre a imagem e o documento

Fotógrafo resgata a história da Revolta dos Cabanos no Pará e transcende uma tragédia pessoal em duas exposições

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

17 Julho 2016 | 05h00

Se você perguntar em Belém o que é Cabanagem, pode ser que alguém lhe indique o bairro deste nome na capital paraense. Mas há também quem saiba, como conta o fotógrafo André Penteado, que se trata de uma “avassaladora” revolta social ocorrida entre 1835 e 1840 no então Grão-Pará da Amazônia e que teve como saldo 30 mil mortos, cerca de um terço da população da região na época. “Para muitos, esse passado parece perdido, pouco documentado e até sem sentido”, escreve a historiadora Magda Ricci no texto que integra o livro Cabanagem, de André Penteado, lançado em 2015 pela Editora Madalena.

“O que é a construção da narrativa histórica?”, indaga o artista, que exibe um excerto de Cabanagem na exposição Arquivo Ex-Machina, em cartaz no Itaú Cultural. Na sala dedicada à obra do paulistano, uma sequência linear de fotografias contemporâneas, misteriosas, em cor, e um vídeo com 11 horas de depoimentos ininterruptos e sem rostos são a interpretação e a reconstrução da “passagem de um furacão histórico” no Norte do Brasil, afirma a curadoria da coletiva, assinada por Iatã Cannabrava e Claudi Carreras. “O trabalho mostra que, em qualquer tempo – ontem, hoje e amanhã –, o abandono dos dirigentes e dos trópicos gera ódio e violência.”

A definição dos curadores é uma das leituras factíveis do projeto de André Penteado. “Fotografia não é realidade, ela parte da realidade, é muito parecida com a realidade, ela pode dizer muitas coisas sobre a realidade, pode contar uma notícia, mas é sempre uma versão”, diz o artista. “Só que as pessoas, estranhamente, acreditam na fotografia”, continua o fotógrafo, que se lançou a criar uma documentação particular dos rastros da Revolta dos Cabanos – “chamados assim por serem pessoas, que, em sua maioria, eram pobres (moradores de cabanas) e/ou porque usavam chapéus de aba (cabana)”, como esclarece Magda Ricci.

“Eles (cabanos) efetivamente tomaram o poder por mais de um ano depois de matar o governador do Estado”, explica André Penteado. “Estavam revoltados com a concentração do poder na mão dos portugueses da região vários anos depois da Independência”, contextualiza. Como conta o fotógrafo, o trabalho Cabanagem faz parte de um projeto mais amplo intitulado Marcas, Traços e Vestígios, que pode ser resumido “como uma investigação fotográfica de fatos da história do Brasil que não possuem iconografia fotográfica”. Atualmente, a Missão Francesa e a Revolução Farroupilha são as novas investigações do artista a serem criadas também no formato de livro.

“Tento criar imagens com muitos níveis possíveis de conexão com o mesmo assunto”, explica André Penteado. No caso de Cabanagem, as fotografias realizadas por ele em 2014 em Belém, Barcarena, Vigia, Vila de São Francisco Xavier, Ilha de Tatuoca, Acará e Cametá, todas localidades do Pará, são muito mais que registros. Lugares que, de alguma forma, estão ligados à história da revolta, e pessoas entrevistadas durante a pesquisa foram retratadas pelo artista de uma maneira direta, entretanto, instigante.

Algumas imagens da série, por exemplo, são noturnas e, curiosamente, feitas com o uso de flash. “Não busco a luz bonita, a luz que romantiza”, diz o fotógrafo. Mais ainda, nada nos é explicado – nem mesmo as legendas, quando presentes no livro, não cumprem esse papel, ficando em aberto ao leitor ou ao espectador estabelecer relações e significados nesse jogo entre “imagem fotográfica e documento”.

“Trabalho em uma ideia de espiral”, afirma André Penteado. Ao mesmo tempo que participa da mostra Arquivo Ex-Machina, o fotógrafo realiza no Centro Cultural São Paulo a exposição individual Não Estou Sozinho, que traz obras criadas com base em uma experiência muito pessoal e trágica, o suicídio de seu pai, em 2007. “Ressignificar as coisas na vida é o importante”, diz o artista, de 45 anos.

O fotógrafo estava em Londres, onde viveu até 2012, quando recebeu a triste notícia. Em São Paulo, fotografou o velório e, 15 dias depois, fez ainda uma sequência de autorretratos de olhos fechados e com as roupas do seu pai. As imagens desse período formaram o primeiro livro do artista, O Suicídio de Meu Pai (2014), concebido com o Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger de 2012/2013.

Agora, em Não Estou Sozinho, André Penteado exibe séries fotográficas e dois vídeos realizados ainda em Londres, entretanto, em um segundo momento de seu processo de luto.

“Ninguém espera que um pintor faça um trabalho documental exaustivo sobre um assunto”, afirma. O artista transcende a história pessoal e apresenta o resultado de sua aproximação com um grupo de pessoas com familiares suicidas. “O suicídio te coloca em um lugar social estranho”, conta Penteado, que vai fazer no próximo dia 6/8, às 15 h, uma fala no CCSP sobre Não Estou Sozinho e com a participação de convidados.

Arquivo Ex-Machina. Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 2168-1777. 3ª a 6ª, 9h/20h; sáb., dom. e feriados, 11h/20h. Grátis. Até 7/8

Não Estou Sozinho. CCSP. R. Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002. 3ª a 6ª, 10h/20h; sáb., dom. e feriados, 10h/18h. Grátis. Até 21/8

Encontrou algum erro? Entre em contato

0 Comentários

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.