Alemães dando três beijinhos

Fazia oito anos que não vinha a esta cidade. Quase não a reconheci. Vi-me perdido, meus referenciais mudaram. Eu vivia no setor Leste e a cidade hoje funciona em torno do que era a Ost Berlim, o lado oriental, o ''lado de lá'', agora conhecido como Mitte, deslumbrante, diga-se logo. Senti-me estranho numa cidade estranha, como diria James Baldwin, escritor quase esquecido hoje em dia. Alegrei-me. Sem limites, sem lado de cá e lado de lá, Berlim é dinâmica, efervescente, endoidecida, alegre. Que se cuidem os outros, os berlinenses estão dispostos a tornar sua cidade a capital da Europa. O que ela já foi nos anos 20. O que espanta a um paulistano é a ausência de motoqueiros, do barulho dos escapamentos abertos. Há motos, claro, mas daqueles modelos que dariam água na boca dos aficionados. Transitando nas normas do trânsito. Há um silêncio que nos assombra, mas, convenhamos, o número de carros em circulação é mínimo, ridículo se comparamos com São Paulo. Congestionamentos? Palavra desconhecida, fenômeno abstrato. Porque o transporte público, dos mais desenvolvidos do mundo, concentra quem se desloca. Há o ônibus - em todas as direções possíveis - há o metrô subterrâneo, U-Bahn, e o metrô de superfície, S-Bahn, que corre sobre nossas cabeças. Todos com horários sincronizados. Nas avenidas e ruas principais, e em todas as estações de metrô, letreiros luminosos indicam em quanto tempo o seu ônibus ou trem chegará no ponto, 5 minutos, 3 minutos, 1 minuto. Quando bate o zero, o carro chega. Há estações imensas, como a de Potsdamer Platz, a Friedrichstrasse (antigo ponto de passagem entre as duas Berlins) ou a Alexander Platz, mas tudo está indicado, só um débil mental se perde. No transporte público parece que não há fiscalização. Você pode arriscar a viajar sem bilhete, não há catracas. Súbito, porém, o jovem que está ao seu lado, de bermuda e boné, como se fosse turista, pode se virar e pedir seu bilhete. É funcionário da empresa de transportes. Se tiver bilhete, tudo bem. Não tendo, multa de 40 euros, pouco mais de R$ 100. Se estrangeiro, paga na hora. Os residentes recebem a notificação em casa. Hoje há todos os tipos de facilidades, bilhete para um dia inteiro, dois, uma semana, um mês, com tarifas reduzidas e para todas as direções. Berlim se rendeu inteiramente ao turismo, daí a multidão de todas as nacionalidades que nos atropela nas ruas. O que espanta um paulistano é o número de carros conversíveis, ainda mais que é verão (andei debaixo de 35°C). Porsches, BMWs, Mercedes, Ferraris, e outros, com os motoristas despreocupados, cabelos ao vento, uma mão na direção, a outra solta displicente, exibindo o Rolex, o Breitling, o Bvlgari, e outras grifes da relojoaria. Quanto aos outros, todos circulam de janelas abertas, ato impensável e insensato para um paulistano. Súbito, começamos a relaxar. A nos soltar. No bar ou restaurante, pode ir ao banheiro e deixar a bolsa na cadeira. Bem, pode dar azar, mas não é a regra como aqui. Esta nova Berlim sofreu transformações. Se nos anos 80 e 90 os casais não tinham filhos, por medo do futuro, o que ameaçava diminuir a população, o que se vê hoje são carrinhos e mais carrinhos de bebês por toda a parte. E um mundo de gêmeos. Se antes você podia se ajoelhar que ninguém te respondia em inglês, na loja, bar ou restaurante, hoje há cardápios nas duas línguas, o inglês tornou-se corrente. Informações eram complicadas, agora não mais. Bem, os museus continuam intransigentes, quem lê alemão, leu, quem não lê... Estávamos, Márcia e eu, à noite, no Parque Tiergarten, procurando nos orientar num cruzamento, quando uma senhora de bicicleta parou e indagou em inglês para onde queríamos ir. Respondido, ela nos indicou a direção e os referenciais. Ah! Pode-se circular à noite com relativa segurança. Quando procurava a casa de Bertolt Brecht na Chausseestrasse, perguntei em uma loja. O homem levantou-se, fechou a porta, nos levou à papelaria vizinha, indagou da amiga e nos indicou o lugar exato. Quase caí de costas! Outra vez, consultávamos um mapa, desorientados e um jovem se aproximou: "Posso ajudar?" Certa manhã apanhamos o metrô e numa estação o trem parou, ouvimos avisos em alemão, não entendemos, todos desceram, menos nós. Foi então que um jovem voltou ao vagão e nos alertou: "Mudem de trem, este fica aqui, vai para as oficinas, está com problema." Quando vivi lá, tais coisas eram impensáveis, impossíveis. Surpreendente, todavia, é ver que os alemães, sempre ciosos da privacidade, nunca se tocando, hoje nos recebem com três beijos latinos. Uma similaridade com os brasileiros: nos transportes públicos, ninguém dá lugar aos velhos, muitos correm para sentar antes que eles cheguem. Por outro lado, é bonito ver o número de mulheres de idade como garçonetes, nos biergartens ou nas lojas ou como comissárias nas empresas de aviação. Alemães reclamam de desemprego, mas não dão empregos. É comum ver um garçom só servindo a sala inteira, ou um sujeito sozinho atrás do balcão do café ou lanchonete, atendendo a caixa e servindo enquanto a fila se estende na frente. Na loja da Puma, esperamos um tempão, enquanto a funcionária solitária corria de um lado para o outro, para atender clientes que iam perdendo a paciência. Mas as palavras "sale", "of" ou "reduzierte" são atraentes e comprar um tênis Puma, legítimo alemão, pela metade do preço muda o temperamento. Legítimo alemão, mas fabricado no Vietnã.

Ignácio de Loyola Brandão, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

15 Agosto 2008 | 00h00

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