The New York Times
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Ai Weiwei funde arte e ativismo em exposições sobre migrantes

O artista dissidente chinês levou roupas sujas de refugiados para o ateliê, lavou-as e agora mostra o resultado

Robert Pogrebin, The New York Times

21 Outubro 2016 | 22h36

Quando os migrantes foram forçados a sair do campo de refugiados Idomeni, na fronteira da Grécia com a Macedônia, o artista e dissidente chinês Ai Weiwei foi lá recolher o que eles deixaram para trás. Ai não apenas levou para seu estúdio em Berlim as roupas sujas, tênis e cobertores que iam ser amontoados pelos tratores: ele lavou e passou as roupas, escovou os pulôveres, raspou a lama dos tênis.

Agora, Ai está trazendo 2.406 desses itens para Nova York, onde viveu nos anos 1980 antes de se tornar um dos artistas mais influentes de sua época e passar quatro anos preso pelo governo chinês, que também recolheu seu passaporte. A exposição Laundromat, que será inaugurada dia 5 no espaço Deitch Project’s Wooster Street, apresentará esses pertences, agora limpos, com fotos dos campos de refugiados que Ai visitou (incluindo fotos feitas por ele para o Instagram). Ela também inclui um curto documentário sobre Idomeni que termina com a imagem de um coraçãozinho luminoso do tênis de uma garotinha, ainda piscando, como um farol simbolizando resistência e esperança.

O que chama a atenção é que as crianças ainda brincam, os velhos esperam na fila por um pedaço de pão e as mulheres continuam tendo filhos”, disse Ai, de 59 anos, numa entrevista em seu hotel em Nova York (ele vive e trabalha em Pequim e Berlim). “E roupas lavadas pendem dos varais, como folhas de uma árvore.”

Quem seguiu Ai no Instagram pelo último ano sabe que sua maior preocupação vem sendo o sofrimento dos refugiados. Desde que recebeu de volta o passaporte, em julho de 2015, Ai visitou mais de 20 campos da África, Europa e Oriente Médio, documentando a luta dos migrantes. No ano passado, a Anistia Internacional concedeu-lhe o Prêmio Embaixador da Consciência.

Para Ai,  a crise dos migrantes lembra a própria história familiar. Seu pai, o poeta e ativista chinês Ai Qing, passou os primeiros 20 anos da vida do filho em campos de trabalho forçado. Jeffrey Deitch, do Deitch Projects, disse que sua sugestão inicial foi a de uma exposição histórica sobre a obra de Ai, mas o artista preferiu focalizar o presente para denunciar o que considera uma emergência internacional.

“Estou sempre interessado em artistas que não apenas fazem arte, mas têm uma concepção totalmente nova do que é ser artista”, disse Deitch, sentado ao lado de Ai. “Com Weiwei, você não capta apenas o estímulo, mas recebe sabedoria. Ele se disciplinou para organizar seus pensamentos de maneira profunda.”

A exposição promovida por Deitch é uma das quatro envolvendo Ai Weiwei que começam no mesmo dia em Nova York. Os dois espaços da Mary Boone Gallery – na Quinta Avenida e em Chelsea – e a Lisson Gallery apresentarão a Ai Weiwei 2016: Roots and Branches. Cada uma das três exibirá diferentes exemplos da escultura recente de Ai, incluindo símbolos de erradicação e expulsão, como troncos de árvore de ferro fundido.

A seguir, trechos editados da entrevista com Ai.

Por que essas roupas foram deixadas para trás? Os migrantes tiveram de cruzar montanhas, espremer-se em barcos. O jeito foi abandonar a roupa suja. Não há nada de artístico nisso. É a vida diária, a luta humana. Por que você decidiu lavá-las?

Não gosto de sujeira. Nós éramos pobres, mas minha mãe dizia ‘lavem as mãos’. Para mim, limpeza é dignidade humana. É básico. Como é que roupas em cabides podem chamar a atenção para refugiados? Os migrantes estão lá, e ao mesmo não estão. Essas roupas existem, pode-se tocá-las. Cresci em condições parecidas. Usava sapatos que foram de meu irmão. Eram grandes demais, mas eu os calçava. Era melhor que andar descalço. Meu pai usava uma gravata como cinto porque não tinha um. E, quando fazia trabalho forçado no inverno, descosturava a gravata para com ela agasalhar um pouco os pés enregelados.

Por que você foi tão atraído por esse tema?

É realmente um desafio ver todas essas pessoas, algo como uma ferida aberta. Não é um problema de fácil solução. São várias gerações que não tiveram educação, mas sentem como o mundo as tratou.

Como é ter três exposições simultâneas em Nova York?

Dos 26 aos 36 anos, vivi no Lower East Side. Foi para mim a época mais importante. Como todo artista, eu lutava. São muitos sentimentos. Não é fácil voltar.

Por que você posta tantas fotos de refugiados, todo dia?

Talvez a coisa mais poderosa que eu possa fazer é filmá-los – mostrar esse fragmento de realidade. Sei muito pouco dessas pessoas, de seus conflitos. Há muitas perguntas.

O que o surpreendeu ao visitar campos de refugiados?

Havia muitos cobertores nas tendas e, de repente, eles começavam a se mexer, porque havia gente embaixo. Foi também uma surpresa ver tantas crianças que não choravam. Eram como adultos, vivendo na umidade, no frio, em uma situação inaceitável. Suas lágrimas deviam ter se esgotado. (Tradução de Roberto Muniz)

 

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