Felipe Rau
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Ai Weiwei refaz com o filho a odisseia do pai, que foi o anfitrião de Jorge Amado e Neruda na China

Artista chinês está em São Paulo, onde vai criar obra e exibir novo filme

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2017 | 04h00

Ai Weiwei, o dissidente artista perseguido pelo regime chinês, está no Brasil. Refaz com o filho a viagem que seu pai, o poeta Ai Qing (1910-1966), empreendeu há mais de seis décadas à América do Sul para convidar o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), prêmio Nobel de Literatura (1971), a fazer uma palestra na China. “É, de fato, uma jornada sentimental”, reconhece, concluindo que fez questão de trazer o único filho, Ai Lao, de 8 anos, “para conhecer uma outra realidade, bem diferente da chinesa”. Weiwei, em entrevista exclusiva ao Estado, revelou sua intenção de criar uma obra totalmente voltada para a cultura do Brasil e anunciou a exibição de seu novo filme, Human Flow, em outubro, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, após sua estreia no Festival de Cinema de Veneza, que vai até 9 de setembro.

O filme, feito com capital americano e alemão, é um documentário sobre a situação dos refugiados em várias partes do mundo. Concorre em Veneza com produções dirigidas por outros famosos, como George Clooney (Suburbicon) e Guillermo del Toro (The Shape of Water). Trata-se de mais uma tentativa de Weiwei chamar a atenção para a situação dos refugiados que tentam desesperadamente chegar à Europa numa época em que a extrema direita do continente banca navios para impedir a entrada de imigrantes, deixando claro sua hostilidade nos cartazes colados aos cascos.

No ano passado, ele apresentou na Konzerthaus de Berlim uma instalação com 14 mil coletes salva-vidas fluorescentes, denunciando essa má vontade europeia. Também evocou, em 2016, a tragédia do garoto sírio Aylán Kurdi, de 3 anos, encontrado morto na praia de Bodrum, na Turquia, em 2015, refazendo na ilha de Lesbos, na Grécia, a comovente foto que denunciou o descaso europeu com os refugiados.

No Brasil, ele ainda não pensou num projeto específico. Guiado pelo produtor Marcello Dantas, diretor da Japan House, ele vai viajar por várias regiões do País para captar elementos das culturas locais que deverão entrar na exposição programada para 2018, na Oca, Ibirapuera. Na Argentina, ele inaugura uma mostra em novembro, na Fundação Proa, também curada por Dantas. 

Odisseia. Mais que uma jornada sentimental que refaz a odisseia do pai poeta, a viagem do artista chinês Ai Wei Wei pela América do Sul reata os laços de sua família com o Brasil. Isso porque Ai Qing, o pai, nos anos 1950, foi o anfitrião de Jorge Amado e Zélia Gattai, que acompanhavam o poeta chileno Pablo Neruda e sua mulher Matilde Urrutia em sua primeira viagem pelo território chinês. O pai do artista era, então, uma espécie de embaixador cultural da China, mas logo caiu em desgraça no governo Mao Tsé-tung, sendo condenado ao desterro e inaugurando uma militância familiar contra o Estado, que também levaria o filho à prisão, em 2011.

Ai Wei Wei foi preso nesse ano no aeroporto internacional de Pequim. Ficou quase três meses atrás das grades. O governo chinês justificou a detenção por “crimes econômicos”, mas a razão verdadeira foi sua militância por meio das redes sociais, acusando as autoridades de seu país de cercear a liberdade de expressão e desrespeitar os direitos humanos. Wei Wei, que atuou como consultor da dupla de arquitetos suíços Herzog e De Meuron na construção do estádio olímpico chinês em 2008 (também conhecido como Ninho de Pássaro), investigou por conta própria as causas do desabamento de escolas em Sichuan depois do terremoto de 2008. Revelou o escândalo das ‘tofu-dreg schools’, aquelas escolas nas províncias chinesas feitas com materiais da mais baixa qualidade, especialmente em Sichuan, onde milhares de crianças perderam a vida.

“O Estado como ideologia, em que princípios como liberdade de expressão e respeito aos direitos humanos são ignorados, é algo vergonhoso”, critica Wei Wei, concluindo que a sociedade chinesa sacrificou também suas reservas naturais em nome do progresso, sem deixar espaço para a criação. “É impossível que ela venha a dominar o mundo desse jeito.” 

Suas obras mais polêmicas, como o filme que condena a irresponsabilidade do governo chinês no episódio das escolas de Sichuan, serão exibidos em novembro na mostra dedicada ao artista em Buenos Aires pela Fundação Proa. O curador Marcello Dantas também selecionou a peça seminal que ocupou o espaço principal da Tate Modern em 2010, Sunflower Seeds, gigantesco painel com 150 toneladas de sementes de girassol feitas de porcelana.

Uma obra mais recente, Moon (Lua, 2014), concebida em parceria com o artista dinamarquês Olafur Eliasson, pode sinalizar uma possível mudança de orientação na obra de Weiwei, que o aproximaria da poética do pai. “É um projeto interativo, que extrapola os limites de território, nacionalidade e linguagem”, define o artista chinês. No projeto online, o usuário da internet pode também agir como um curador digital, fortalecendo o poder transcendental da tecnologia e incentivando a criatividade dos outros internautas.

“A Alemanha tem sido um bom lugar para se trabalhar”, resume Weiwei, que há dois anos mora e produz em Berlim, num ateliê por onde circulam permanentemente 20 a 30 pessoas. Elas ajudam o artista a criar suas obras, hoje disputadas pelos principais museus do mundo. Esse êxito comercial, porém, não conseguiu mudar a linha de atuação de Weiwei, que conjuga ativismo político e criação estética sem nenhum conflito. Para ele, não há possibilidade de separar os dois. Vida e obra, à maneira duchampiana, são uma coisa só.

Nos EUA, onde viveu durante algum tempo, preferia a companhia de poetas beats como Allen Ginsberg a artistas legitimados pelo mercado de arte. “Minha formação se deu numa sociedade politizada e é com tristeza que vejo a China transformada pelo capitalismo de Estado.” Weiwei usou a internet para fazer o contrário do que imaginaram as autoridades chinesas ao lhe encomendar um blog em 2005. Seu ativismo político digital incomodou tanto que elas se viram ameaçadas e o proibiram de usar a ferramenta. Passou seis anos sem sair da frente do computador até que se tornou a pessoa mais vigiada da China – especialmente depois do episódio da Olimpíada de Pequim e do terremoto de Sichuan. Foi preso, teve o passaporte confiscado e só em 2015 lhe foi concedido um visto para viajar ao exterior.

Weiwei continua cético sobre a possibilidade de mudanças na China, o maior parceiro comercial do Brasil. “Não acho que ela possa ser modelo para país nenhum”, diz, após ter assistido a um jogo do Palmeiras e conversado com o diretor José Celso Martinez Corrêa, criador do Teatro Oficina. “É fácil fazer negócios com um país que desrespeita a democracia e sacrifica o meio ambiente e a educação em nome do capital”, conclui, referindo-se à terra natal. Mas bem poderia estar falando do país parceiro.

Obra do artista sela compromisso entre estética e ativismo

A trajetória de Ai Weiwei tem pouco em comum com a de outros artistas chineses – pintores especialmente – que conquistaram o mercado ocidental. Ele é, antes de tudo, um ativista político que faz uso da arte para expor as contradições de uma república comunista comandada por burocratas que desprezam a democracia e cederam ao poder do capitalismo estatal. Para ele, arte e ativismo político são indissociáveis, como para seu amigo Allen Ginsberg, o poeta beat norte-americano, morto em 1997, que identificava na literatura um ato de militância político-ambiental.

É possível dizer que sua militância tem antecedentes familiares. Seu pai, o poeta e líder comunista Ai Qing, foi denunciado em 1958 como “direitista” pela cúpula maoista e exilado para os confins da China em 1961, retornando a Pequim apenas 16 anos depois, quando a Revolução Cultural chegou ao fim. Em 1976, Ai Weiwei, aos 19 anos, já era do contra. Juntou-se a um grupo experimental chamado Estrelas, desfeito em 1983.

Weiwei vivia, então, nos EUA. Conheceu tanto a vanguarda da Costa Oeste americana quanto a de Nova York. Ficou amigo de Allen Ginsberg, que conhecia poesia chinesa, particularmente a do pai do artista, que encontrou numa viagem à China.

A atração de Weiwei pela cultura do Ocidente fez com que exibisse há dez anos um vídeo que conquistou os críticos na Documenta de Kassel pelo poder evocativo dessa sedução do antípoda que os ocidentais exercem sobre os chineses. Em Fairytale (2007), ele mostra os preparativos de viagem de populares chineses convidados por ele para conhecer Kassel, na Alemanha, antecipando seu destino final de exilado.

Outro retrato do exílio, mais dramático, pode ser visto no vídeo A Beautiful Life (2009), sobre um cidadão chinês impedido de entrar em seu país em 2009 e que passou a morar no aeroporto de Narita, Japão, até que as autoridades chinesas permitissem seu retorno. Em 2011, ano em que Weiwei foi preso, ele realizou outro vídeo sobre a violação de direitos civis na China, So Sorry, aprofundando suas pesquisas para identificar os estudantes mortos no terremoto de 2008 por culpa das escolas construídas com material vagabundo. O realizador foi vítima de violência policial e sofreu hemorragia cerebral.

Além de vídeos, Weiwei ficou conhecido por suas performances, das quais a mais famosa talvez seja aquela em que deixa cair uma valiosa urna da dinastia Han, registrada numa série fotográfica de 1995.

 

 

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