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Abre a primeira mostra retrospectiva do escultor Marino Marini no Brasil

Exposição começa neste fim de semana em Porto Alegre e chega em julho à Pinacoteca de SP

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

11 Abril 2015 | 03h00

Primeira grande retrospectiva internacional do pintor e escultor italiano Marino Marini (1901-1980) nos últimos 40 anos, a exposição Marino Marini: Do Arcaísmo ao Fim da Forma será aberta neste sábado, 11, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, onde fica até 21 de junho. A mostra reúne 89 obras, entre pinturas, desenhos e 34 esculturas em bronze provenientes de Pistoia e Florença. São Paulo vai receber a retrospectiva de Marini em 18 de julho, na Pinacoteca do Estado. Ela vai até 27 de setembro.

O curador da exposição, Alberto Salvadori, diretor do museu que leva o nome do artista em Florença, em entrevista por telefone ao Estado, ressalta que a volta da obra de Marini a São Paulo tem um significado especial pela presença de esculturas do artista no acervo de instituições como o Masp e Museu de Arte Contemporânea (MAC). “Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, doou ao museu (MAC) o cavalo de bronze com o qual Marini ganhou o Grande Prêmio de Escultura na Bienal de Veneza, em 1952”, lembra Salvadori.

Por essa época, a tensão entre os cavalos e cavaleiros de Marini já atingira seu ponto culminante. Tanto que o cavalo do MAC (esculpido em 1951), um dos destaque da mostra, é um animal selvagem, indomável. Não mais aceita um cavaleiro sobre seu dorso. Antes, a harmonia e a integração entre animal e homem na obra do escultor parecia indissolúvel. “Entre 1935 e 1936, quando ele iniciou suas pesquisas sobre os cavaleiros, os valores eram diversos do pós-guerra”, observa o curador. “Suas esculturas, de 1951 em diante, refletem a condição e a desarmonia do homem moderno e são bem diferentes das figuras arcaicas que guiaram sua escultura no começo, marcada pela influência da arte etrusca e egípcia.”

A tragédia do confronto bélico na Europa fez Marini mudar de rota ao se refugiar em Locarno, Suíça, em 1943, quando se aproxima do amigo, também escultor, Giacometti (1901- 1966), cuja obra é igualmente uma expressão da angústia moderna. Salvadori exemplifica essa mudança citando uma escultura de Marini feita em 1947, Cavaleiro, em que o homem não domina mais o cavalo, integrando-se ao corpo do animal como uma massa disforme - um anúncio do caminho para a abstração nas décadas seguintes, quando Marini volta a pintar com mais intensidade.

Há na mostra oito pequenas esculturas em bronze, composições abstratas dos anos 1960 em que a ausência de cavalos e cavaleiros é sintomática. Quatro temáticas resumem, segundo o curador, a arte de Marini: os cavaleiros, os retratos, os nus femininos e o circo. Os cavaleiros fazem a ponte entre o artista e o mundo antigo, os etruscos. Nascido numa cidade provinciana da Toscana, Pistoia, desde cedo ele tem contato com a história etrusca que brota da terra, cujos artefatos se encontram hoje no museu arqueológico da vizinha Florença. Os retratos, diz o curador, foram quase uma imposição. “Eles eram encomendados e por vezes rejeitados”, revela.

É o caso, diz ele, do busto em bronze do pintor surrealista Marc Chagall, uma pequena escultura de 40 centímetros de altura feita em 1962, hoje pertencente à Fundação Marino Marini de Pistoia. “Chagall, numa carta a Marini, se mostrou decepcionado por ter sido retratado tão feio”, conta o curador. O compositor russo Igor Stravinski não teve melhor sorte. Esculpido em 1950, o busto deixa o autor de A Sagração da Primavera ainda mais feio do que era. Os dois bustos estão na mostra.

Quanto aos nus femininos, Marini tem uma relação melhor com a “pomona” - encarnação do eterno feminino, em que adota como modelo a figura mitológica da deusa da fertilidade, embora todas as figuras estejam um pouco acima do peso, especialmente as dos anos 1940. Há na mostra versões delas em desenhos, pinturas e esculturas de várias épocas, assim como de pugilistas e atletas. “Marini se definia como pintor, antes de escultor”, observa Salvadori, chamando a atenção para os trabalhos do último período, dos anos 1960 e 1970, quando a abstração domina essas obras. Isso não significa ausência de expressão. Numa delas, O Grito, uma vigorosa escultura em bronze de 1962 também presente na mostra, ele identifica o “frenesi descontrolado, destruidor” que traduz a desarticulação da forma e a condição trágica do homem contemporâneo. 

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