A vida que necessita da morte

Búfalo da Noite mostra como a finitude explica a existência

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

25 Outubro 2007 | 00h00

Gregório, um adolescente extremamente sensível, para quem a realidade é algo insuportável, decide acabar com sua vida, e desencadeia o desespero e a angústia nas vidas de Tânia, sua ex-noiva, e de Manuel, seu melhor amigo, ambos marcados pelos sentimentos de culpa e traição. O Búfalo da Noite foi a primeira obra literária de Guillermo Arriaga a chegar no Brasil, quando já era conhecido pelo roteiro de Amores Brutos. E já carrega as principais características de sua obra, como comprova a versão para o cinema, dirigida por Jorge Hernandez Aldana. A narrativa de O Búfalo da Noite compreende as mesmas inquietações que perseguem Arriaga, que confessa ter a morte como um dos temas preferidos em seus textos. Ou seja, a ausência e o peso dos mortos sobre os vivos. Especialmente em Manuel, vivido por Diego Luna. Ele catalisa a angústia marcante das narrativas de Arriaga, para quem somente aqueles que tiveram um contato mais próximo com a violência podem retratá-la com eficiência. O drama de Gregório torna-se secundário diante das dúvidas de Manuel que, mesmo o tendo traído quando este ainda estava vivo, trava uma batalha contra um fantasma que se transformou em inimigo. Afinal, os mortos continuam pesando na vida das pessoas. Mas, como ensina Arriaga, o amor pode também nascer a partir da perda - depende apenas das pessoas. A mudança radical sofrida por Manuel é bem delineada pela interpretação de Diego Luna, capaz de revelar nos detalhes a curva na trajetória do personagem. Sua angústia crescente é compartilhada pelo espectador, que se sensibiliza com as suas perdas, a ponto de também não se culpar pela morte de Gregório.

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