A paisagem desnatural de Efrain

Artista recria com pequenas esculturas a memória da vida no interior do Ceará

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

Efrain Almeida chama a atenção para uma inversão interessante que ele faz com suas esculturas agora exibidas na Galeria Fortes Vilaça: como são miniaturas, pequenas peças de madeira esculpidas por ele nas formas de bichos (cabras e pintinhos de galinha), elas ficam no chão para o visitante se tornar monumental em relação a elas, não o contrário. No espaço neutro da galeria, as peças povoam uma Paisagem, como diz o título da mostra que hoje ele inaugura. Trata-se da criação de uma ''''autoficção'''', como ele define, porque todos os elementos partem de sua memória afetiva, têm relação com seu lugar de origem, a cidade de Boa Viagem, no interior do Ceará. A partir de uma pequena casa de madeira - réplica da casa de seu pai -, colocada sobre uma base que funciona como um móvel simples do mesmo material, adentramos nesse universo ao mesmo tempo pessoal, ao mesmo tempo feito de ambigüidades. Numa das paredes da sala, está uma peça solitária, o auto-retrato do artista. É uma cabeça esculpida em madeira, segurada por duas mãos. ''''O gesto das mãos é ambíguo, elas parecem oferecer ou reter'''', diz Efrain - porque é curioso como uma delas quase esconde metade daquele rosto. Se diante de seu auto-retrato, 32 pintinhos esculpidos estão no chão de cimento da galeria formando a representação de uma cena banal da vida no interior, assim como três cabritos de madeira, aquela paisagem é, afinal, ''''uma idéia de paisagem'''', ainda afirma Efrain - ela é desnaturalizada e fragmentada para ser recriada em imagens. Efrain Almeida, que também está presente na mostra Panorama da Arte Brasileira no MAM, vive e trabalha no Rio, mas, nos últimos tempos esteve indo constantemente para sua cidade natal no Ceará. Dessas idas surgiu a idéia de criar as peças dessa exposição. Talvez os pequenos pintinhos se encerrem na idéia de paisagem desnaturalizada, mas os outros elementos não. As ambigüidades continuam nos bancos de madeira e de couro de cabra que têm em vez de pernas normais e retas a forma de patas do animal (''''crio uma terceira imagem a partir de um utensílio doméstico'''', diz o artista); e na réplica da casa de madeira que é arquitetônica e orgânica, como afirma Efrain, porque há um caráter artesanal que lhe imprime vida (basta ver as telhas esculpidas). Já as esculturas das cabras, com olhos tristes, e de duas coelhas (símbolo do universo infantil) colocadas sobre uma base de madeira e recobertas por uma vestimenta rosa fazem, frisa o artista, referência à arte moderna. ''''Olhando na internet, vi que Picasso fez certa vez escultura de uma cabra e desenhos e fiquei me perguntando por que ele tinha feito isso'''', conta Efrain. A resposta veio quando observava as cabras no Ceará: ''''Elas têm uma configuração geométrica interessante. O formato de suas caras é triangular.'''' Já as coelhas, em sua composição cromática, ele diz, remetem às esculturas de bailarinas de Degas. Ao mesmo tempo, a galeria exibe no mezanino instalação inédita do alemão Franz Ackermann com pinturas e fotos.

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