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Cultura

Rodrigo Naves

A nova paisagem nas telas de Renata Pelegrini

Em sua primeira exposição individual, na Casa Contemporânea, pintora exibe maturidade e técnica

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Antonio Gonçalves Filho,
O Estado de S. Paulo

26 Fevereiro 2016 | 04h00
Atualizado 26 Fevereiro 2016 | 16h20

A questão do sublime na paisagem contemporânea não é naturalmente marcada pela concepção que tinham Burke e Kant no passado nem pelo aspecto numinoso destacado por Rudolf Oto depois deles. É provável que nem mesmo o pós-moderno Lyotard possa ser adotado como referência quando tenta redefinir o sublime na arte contemporânea, pois considera apenas parcialmente como as novas tecnologias mudam esse conceito. Uma pintora que abre nesta sexta, 26, sua primeira exposição individual, Renata Pelegrini, pode ser de grande ajuda para os que estiverem dispostos a discutir o sublime e a representação artística da natureza estreitamente ligada à percepção do mundo natural intermediada pelo meio digital. Sua mostra na Casa Contemporânea, que reúne 20 obras, entre desenhos e pinturas, revela como o artista contemporâneo, munido da mais alta tecnologia digital, reage à maneira como a sociedade atual controla o olhar, ao afirmar radicalmente sua subjetividade com a técnica da pintura.

Esses trabalhos, de vistas interiores a paisagens recriadas com a ajuda da imagem digitalizada, estão inseridos numa corrente da pintura contemporânea que oscila entre a representação e a abstração. Para citar apenas um nome que parece ter afinidade com a pintura de Renata Pelegrini, a norte-americana Claire Sherman parece dividir com ela algumas questões filosóficas e estéticas, especialmente as teorias de Rancière sobre o jogo entre a “presença visível” e a invisibilidade. Rancière, cujo interesse na produção estética tem sua origem na teleologia hegeliana, divide com o crítico Clement Greenberg (1909-1994) algumas ideias sobre abstração e o ilusionismo do espaço tridimensional, mas abre uma brecha para manifestações expressivas dentro da concepção formalista.

A paulistana Renata Pelegrini, que só agora, aos 49 anos, sente-se confortável para mostrar seus trabalhos, faz uso de gestos expressivos para criar seu universo pictórico. São gestos rápidos, irreversíveis, ligados à larga experiência com a caligrafia, marco zero de sua formação. Professora, criada num meio familiar de pedagogos, ela participou antes de vários salões, no Brasil e na Itália, onde morou. Seu interesse por caligrafia a levou a frequentar cursos em diversos países (EUA, Itália, Suíça), histórico que se faz presente em telas e desenhos com a intervenção de traços precisos, subordinando a execução pictórica ao ordenamento formal caligráfico.

“A caligrafia é um trabalho monástico, exige disciplina, e a minha pintura é rápida, de gestos expressivos”, diz a pintora, que assume as “contradições” como frutos de seu tempo, marcado pela imprecisão e a incerteza. “Penso em Rancière, mas é uma reflexão a posteriori, que vem após a conclusão da pintura”, explica Renata, que teve aulas de história da arte com o crítico Rodrigo Naves e orientação do pintor Paulo Pasta.

Nascida em São Paulo e formada em Letras, a artista, também tradutora, tem estreita ligação com o universo literário. Ela cita o livro Água Viva, de Clarice Lispector, para explicar como se deu sua adesão ao mundo da pintura. Nesse texto derradeiro de Lispector, publicado pouco antes de sua morte, em 1973, a escritora traça uma relação analógica entre a escrita e a pintura, desconstruindo a primeira para que seja reconstruída pelo trabalho visual (nunca esquecendo que Clarice também foi pintora, embora mediana). O tema de Água Viva é o instante, o presente. O da pintura de Renata Pelegrini também é – o que explica a rapidez do traço expansivo feito com tinta acrílica, que seca numa velocidade industrial.

No entanto, essas pinturas revelam sua filiação à tradição modernista, como observa a curadora da exposição, Taisa Palhares, citando particularmente Matisse e uma tela referencial sua, Porte-Fenêtre a Collioure (1914), primeira tentativa do pintor de transformar o preto no equivalente da luz. A tela, que retrata a porta da casa do artista em Collioure, no fim do verão de 1914, é uma composição no limite da abstração, registro dos tempos sombrios marcados pelo primeiro conflito mundial. Essa é igualmente a cor que predomina nas paisagens e vistas interiores de Renata Pelegrini, mas, no caso, não existe uma proposição metafórica nem o espaço ilusionista criado pela porta matissiana.

Seus desenhos, em carvão, sanguínea, grafite e giz são estruturados como uma composição arquitetônica em que o ambiente externo é contaminado pelo interno, aspecto mais visível nas pinturas, em que o preto, como elemento luminoso, tem algo de Goeldi, transformando locais reconhecíveis em abstrações, com imagens de segunda mão. “Costumo recorrer a imagens da internet ou a fotos de paisagens de lugares que visitei.” São apenas pretextos para a pintura, admite.

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