A nova época da barbárie, segundo Denys Arcand

Mesclando drama e humor, A Era da Inocência mostra apocalipse moderno

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2007 | 00h00

Não se sabe por que motivo o novo filme de Denys Arcand, L''''Âge des Ténèbres, foi traduzido para A Era da Inocência. Pois, para o diretor, o que vivemos é bem uma nova idade das trevas e não da inocência. Aliás, qualquer pretensão à inocência foi perdida nesse mundo descrito pelo cineasta canadense: vida familiar destruída, ambiente profissional minado pelo excesso de competição, trânsito infernal, relações humanas artificiais, sexo mecânico, mediação insípida pelo discurso politicamente correto, etc. Poderia parecer um cardápio intragável, este oferecido por Arcand, não fosse seu terrível senso de humor, que beira às vezes o sarcasmo mas dá um tempero ao conjunto. As pessoas foram reduzidas a robôs, o sexo não vale mais a pena, a vida profissional tornou-se um fardo e um ser insignificante como o funcionário público Leblanc não tem não outro recurso senão refugiar-se no devaneio. Entre risos e insights, o filme progride rumo àquilo que parece ser o naufrágio absoluto do personagem. Como em filmes anteriores, Arcand se empenha em nos mostrar o absoluto absurdo em que se converteu a vida contemporânea, e não apenas nos países periféricos, como parecem acreditar os brasileiros. É a estrutura mesma dessa vida, fundada no consumo compulsivo e na ausência de utopias, que entrou em parafuso. Esse trabalho cinematográfico, que balança entre o trágico e o cômico, parece um convite à reflexão. Aliás, reflexão é outro hábito em desuso em meio ao frenesi de comunicações que nada comunicam, e da volúpia de informações inúteis de que é feito o nosso tecido mental contemporâneo. Em meio ao caos, busque o essencial - parece nos dizer Arcand. O dia da Mostra reserva ainda outras atrações, além da distopia de Arcand. Entre os brasileiros, Jogo de Cena, o novo e maravilhoso documentário de Eduardo Coutinho, sobre vidas ''''reais'''' reconstruídas entre a ficção e a fantasia. Via Láctea traz o universo poético de Lina Chamie em filme muito inspirado. E Otávio e as Letras, de Marcelo Masagão, mostra um personagem instigante em uma São Paulo transfigurada. A estranheza do filme fez com que fosse ignorado na premiação de Gramado, no qual concorreu; mas essa é a sua melhor qualidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.