A hora e a vez dos sessentões

Marília Pêra festeja os papéis para atores veteranos e fala de carreira e projetos

Entrevista com

Leila Reis, leilareis@terra.com.br, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2007 | 00h00

Marília Pêra só assiste novela quando ela própria está no ar. Com 60 anos de carreira, 60 espetáculos teatrais no currículo, cerca de 30 filmes e 30 novelas, Marília diz que hoje busca coisas mais delicadas, foge de violência explícita (não viu e não vai ver Tropa de Elite), mas está em plena efervescência profissional. Se prepara para dirigir quatro peças, estrear um musical como atriz e dá os últimos retoques em um livro de auto-ajuda para jovens atrizes. Nesta entrevista exclusiva ao Caderno 2, ela só lamenta não conseguir emplacar, há 13 anos, um programa na tela da Globo: ''''Ele é tão baratinho e simples que não vinga.'''' Esta semana coube à Gioconda uma cena de alta dramaticidade. O que dá mais prazer: fazer chorar ou rir na TV? O que dá mais prazer é interpretar um personagem bem escrito, bem dirigido. O ator sempre é refém do texto e da direção. Não adianta ser bom ator se o personagem não for bom. No teatro, o ator pode dar um jeito, mas na televisão e no cinema, nunca, ele precisa do autor, do diretor, do editor. Receber um bom personagem é como ganhar na megassena. Gioconda é a sua enésima personagem rica. Você se sente bem no papel de chique?? Eu gosto, as roupas são bonitas, pessoas emprestam jóias, sapatos. Como eu sou magra, por causa da história com balé, tenho a forma que personagem rico pode ter. Gosto de personagens como Maria Callas e Madame Channel. O que você tem de Gioconda? Não sei. Tento ter uma ponderação cotidiana, elegância, ser discreta. Eu não sou perua. Gioconda tem um desequilíbrio nervoso por causa da contenção dos sentimentos menos nobres. Não tenho essa identificação com ela. Ney Latorraca diz que você é a madrinha dele na TV. E quem foi o seu padrinho? Eu me lembro de ser madrinha dele na formatura na Escola de Arte Dramática da USP em 1971. Não me lembro de ter padrinho na TV, porque eu comecei aos 14, 15 anos, como bailarina do corpo de baile de Johnny Franklin da Tupi. Como atriz, estreei no Teatro de Comédia, com meu pai, Manuel Pêra. Aos 4 anos, fiz o papel de filha de Medéia e Jasão, interpretados por meus pais, no teatro. De todas as suas personagens na televisão qual é a que traz as melhores lembranças? Estou muito contente com a Gioconda de Duas Caras, uma personagem misteriosa, que não sei direito quem é: se é santa ou uma bruxa. Acho que ela é a legítima duas caras. Mas adorei Rafaela, de Brega & Chique, e Juliana, de O Primo Basílio. E qual a que mais frustrou? Não época da novela Bandeira 2 (1971), reclamei muito com Dias Gomes por causa de minha personagem Noeli. Depois fiz o mesmo com Supermanoela (1974), do Walter Negrão. Acho que eu não soube dar valor a essas personagens. Bandeira 2 era uma novela de homens e foi por causa de Supermanoela que o Hector Babenco me levou para fazer os filmes O Rei da Noite e Pixote. Você já fez novela fora da Globo, não? Qual é a diferença? Fiz Beto Rockefeller e Super Plá (1969) na Tupi e O Campeão, na Bandeirantes. Não faz diferença trabalhar aqui ou ali. O que pesa é se se faz um grande personagem ou não. Minha história com a Globo é antiga: quando ela inaugurou, em 1965, eu estava lá. Parece que pela primeira vez uma emissora entra na teledramaturgia para valer. O que você acha das novelas da Record? Vi muito pouco, porque só vejo novela quando estou no vídeo para avaliar o meu trabalho. Tiago Santiago (autor da novela da Record) é um amigo, fez o papel de meu filho na peça Adorável Júlia. Não vejo por falta de tempo. Estou dirigindo a peça de Roberto Athaíde, Um Lobo Nada Mau, a nova montagem de Doce Deleite, com Camila Morgado e Reinaldo Gianecchini, vou dirigir mais uma versão de O Mistério de Irma Vap, com Marcelo Médici e Cássio Scapin, e uma peça sobre Dercy Gonçalves para a Fafi Siqueira. Ivald Bertazzo me convidou para fazer um musical, como atriz, em junho. Então não dá para assistir novela. No teatro você já interpretou muitas divas: Callas, Dalva, Carmen Miranda, Chanel. Qual delas você levaria para a TV? Se eu tivesse 25, 30 anos, e não 64, adoraria fazer Carmen Miranda, que morreu com 46. Já Dalva de Oliveira eu poderia fazer... Você apresenta projetos? Faz 12 ou 13 anos que apresento um projeto de uma escolinha de preparação para jovens atrizes. O programa é tão baratinho e tão simples que não vinga. Depois da novela, eu vou tentar de novo. O cinema também é sua praia. Seu melhor trabalho foi em Pixote? Foi sim, mas também gostei muito de fazer Perpétua, no Tieta, e do filme Dias Melhores Virão. Mas agora estou louca para que estréie logo Polaróides Urbanas, de Miguel Falabella, em que faço duas irmãs gêmeas. É uma comédia rasgada, que ganhou prêmio no festival de Miami. Todo mundo reclama do ritmo da narrativa nas novelas. Você sente essa aceleração? Não é o caso de Aguinaldo Silva. Acho que ele até se arrisca bastante. Começou a novela com uma história lenta, cenas longas. Como espectadora, não gosto de ritmo frenético, fico cansada. O mundo hoje é elétrico, se você não é veloz, agitado, pode perder postos. Compreendo que seja assim, mas não gosto. Me incomoda as pessoas não se sentarem para conversar. Quando vou a uma festa e vejo cem amigos com quem não posso conversar porque a música é alta, saio na mesma hora. Estou buscando coisas mais delicadas. Não gosto de violência explícita, sangue saindo, não vi e não vou ver Tropa de Elite, não me faz bem. O que mudou na TV? Ela melhorou tecnologicamente, há mais pessoas de talento. É maravilhoso ver um time de sessentões - eu, Suzana Vieira, Renata Sorrah, Antônio Fagundes, Stênio Garcia, Marília Gabriela - em papéis importantes, protagonizando, e não como avós, cozinhando, tomando conta de netos. Na novela, as mulheres têm seus homens, vida sexual, pele boa. Então a TV mudou para melhor. Ser ator é estar exposto profissionalmente à rejeição. Como você lida com isso? Na TV a gente é exposta a um grande julgamento. E o ator fica triste quando seu personagem não é o ideal, afinal ele quer ser amado. Não acredito nos que dizem que tiram de letra quando não agradam. Mas eu não, sofro mesmo.

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