A ''''Graça'''' selvagem do maldito Tom Kalin

E o novo documentário de Nicolas Philibert, que vai à Normandia em busca dos camponeses que foram atores de René Allio no cult Eu, Pierre Rivière

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

23 Outubro 2007 | 00h00

Em vez de uma, duas sugestões para o seu programa desta terça-feira. Poderiam ser A Via Láctea, de Lina Chamie, que tanto sucesso fez na Semana da Crítica, em Cannes, ou então El Otro, de Ariel Rotter, que deu a Júlio Chávez o prêmio de melhor ator em Berlim, um filme brasileiro e outro argentino. Vão ser dois estrangeiros - o americano Savage Grace, de Tom Kalin, que dialoga com a França, e o francês De Volta à Normandia, de Nicolas Philibert. Savage Grace (Graça Selvagem) também integrou a seleção de Cannes deste ano, mas em outra seção do festival - a Quinzena dos Realizadores. Kalin é aquilo que se pode chamar de cineasta ?maldito?. Fez Swoon - Colapso do Desejo, contando a mesma história de Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, qual seja a de Leopold e Blom, que foram a julgamento, acusados de cometer um crime gratuito - eles mataram só para provar que poderiam permanecer impunes, mas o crime ?perfeito? foi descoberto. Kalin gosta de assuntos que são considerados, no mínimo, barra-pesada - homossexualismo, aids, crimes premeditados. Em 1993, ele esteve em São Paulo (e no Festival de Gramado) mostrando seus vídeos sobre aids. Savage Grace baseia-se no livro de Natalie Robins e Steven M.L. Aronson, que conta a história de Barbara Daly Baekerland, socialite inglesa assassinada em 1972. Julianne Moore é a intérprete do papel. Se você precisava de só mais um filme para dizer que ela é uma das maiores (a maior?) atriz do mundo, bem, pode ser este. Barbara vive no circuito Saint-Tropez. A história é narrada pelo ângulo de seu filho, um adolescente mimado (e bissexual), que divide o amante com a mãe - e, numa cena que necessita de uma atriz como Julianne, no fio da navalha, concretiza o incesto com ela. Você pode até duvidar que Savage Grace seja uma produção independente. Afinal, Julianne Moore é uma atriz top de linha em Hollywood, mas o filme é independente, e foi feito com pouco dinheiro, o que Tom Kalin disfarça com uma inteligência na recriação de época - difícil, num período recente - que evoca os filmes de James Ivory na fase anterior às superproduções. De Volta à Normandia é documentário, um dos melhores desta mostra que tem Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho - obra-prima absoluta, também hoje -, e S.O.S. Saúde, a nova provocação de Michael Moore, que foi a Cuba para descobrir a excelência do sistema de saúde de Fidel Castro e alfinetar o presidente George W. Bush. Há 22 anos, o jovem Nicolas Philibert foi assistente de direção de René Allio em Eu, Pierre Rivière, Que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão, filme rodado na Normandia, com base numa história exemplarmente dissecada por Michel Foucault. Philibert volta agora à Normandia para entrevistar os camponeses que Allio transformou em atores. Philibert é o diretor de Ser e Ter. Como se admirar, que ele tenha feito mais um bom filme?

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