Patrick Corneau/Divulgação
Patrick Corneau/Divulgação

56.ª Bienal de Veneza marca-se como uma edição militante e intimidadora

O curador Okwui Ewensor troca o silêncio, transcendência e acaso pela pretensão de mergulhar na ruidosa realidade global

Sheila Leirner / Veneza, Especial para O Estado de S. Paulo

18 Maio 2015 | 03h00

No aniversário de seus 120 anos, com 89 nações e 44 eventos paralelos, esta Bienal de Veneza (até 22 de novembro) é talvez uma das mais militantes, intimidadoras e culpabilizantes de sua história. Aqui, apesar dos tesouros artísticos que se pode descobrir, não é a arte que está em questão. Sob o rótulo Todos os Futuros do Mundo, o curador nigeriano e americano Okwui Ewensor troca o silêncio, transcendência e acaso tão necessários à arte, pela pretensão de “mergulhar” na ruidosa e previsível “realidade global”. O que, ademais, é enganoso. Na mostra, os “futuros” são incertos, a visão deles passadista e até mesmo a utopia é nostálgica.

Não que esta 56.ª edição se diferencie das outras. A arcaica estrutura de representações nacionais continua a crescer e existir sob o signo do descompasso. Há, como sempre – ao contrário do que ocorre na Bienal de São Paulo –, um abismo entre grande parte dos envios oficiais e os segmentos reservados aos conceitos da curadoria que, desta vez, parece não ter conseguido, ou desejado, influenciar as seleções governamentais, contentando-se com o Pavilhão Central (Giardini) e parte do Arsenal. Antiquada também continua a premiação. Prêmios e demarcações geopolíticas andam de mãos dadas. Por melhores que sejam as escolhas, sabemos que ambos são sempre anacrônicos e injustos. Só servem ao mercado.

Alguns pavilhões se destacam. O do Japão, apenas pelo belo, gratuito (e fotogênico) efeito. O do Brasil, por seu real alcance, embora não seja suficientemente representativo das obras de Antonio Manuel, André Komatsu e do formidável trabalho de Berna Reale. Por sorte, ela expande a sua apresentação por conta própria, fora do circuito oficial.

A maior parte dos envios oficiais decepciona. Espanha, Alemanha, Canadá, França, Emirados, Santa Sé (presente pela primeira vez) e sobretudo Grã-Bretanha, com a obra de Sarah Lucas, que deixa o público atônito por sua vulgaridade. Restam Todos os Futuros, os espaços de empatia pessoal do curador, com 136 artistas convidados. Nova decepção. Trata-se de uma espécie de versão aumentada da Trienal que ele organizou há dois anos no Palais de Tokyo, em Paris.

Volta o mesmo catálogo da miséria do mundo, caucionado por grandes artistas – desta vez Nauman, Haacke, Steve McQueen (com uma das peças mais emocionantes da Bienal), Piper, Boltanski, Smithson, Broodthaers, Walker Evans, Fabio Mauri, Dumas, Chris Marker, Adkins, Baselitz – e composto por meio da hábil e inteligente montagem analógica usual. Contam-se nos dedos os trabalhos que elevam o espírito. O ambiente é sombrio, depressivo e não raro abriga obras indigentes, como as da mineira Sonia Gomes ou, ao contrário, na esteira do não menos infeliz neo-naïf-tecnológico.

Ou o gosto do curador pelo que é estranho, desamparado, de “resistência” e geograficamente excêntrico lhe fala mais do que os bons critérios artísticos e a exaltação de uma arte em altura; ou trata-se de pura provocação. Uma espirituosa ex-conservadora afirmou: “teria sido melhor um curador ‘cão de caça’ do que ‘cão de guarda’ ”.

Vigilância em excesso, cansativos bons sentimentos e mau gosto à parte, incomoda também uma certa hipocrisia no uso da instituição para criticar o “sistema econômico majoritário” ou promover a leitura de O Capital em plena mostra, denunciando-o como “grande drama”, enquanto a própria Bienal e seus eventos vivem e se desenvolvem graças ao mesmo.

Mas há outras incoerências do curador, ironicamente chamado de “Piketty das artes”. Quando as obras ou a exposição delas serve, como aqui, para um engajamento político, ambiental e social; para refletir “sobre os problemas que afligem o mundo”, privilegiar “países emergentes”, vingar os “injustiçados”, apagar as “diferenças” e agir em favor dos “oprimidos”, entre outras práticas corretas e edificantes, ela pode salvar a boa consciência de organizadores e artistas. Não é certo que livrará a estética ou o conceito artístico puro, em sua acepção filosófica profunda, cujo objetivo é a percepção instintiva, o sentido (e o belo, porque não?) em oposição ao “útil e funcional”.

Joan Jonas, que se redescobre no pavilhão americano, com uma bela obra agora onírica ao extremo, diz que hoje “os artistas sentem-se mais responsáveis pelo mundo”. Ela tem razão, porém Respiro, a comovente obra de Sarkis no pavilhão da Turquia, é talvez uma das mais bem sucedidas obras políticas da exposição, justamente porque reconcilia turcos e armênios de maneira simbólica, poética, transcendente, metafísica mesmo, quase tão abstrata quanto uma sinfonia.

A melhor maneira de banalizar a realidade do nosso mundo é “colar” nela. A ridícula imitação de barquinho de papel que Vik Muniz colocou na Lagoa de Veneza, como lembrança da tragédia dos imigrantes de Lampedusa, embora não faça parte da Bienal constitui um ótimo exemplo. Sob a literalidade patética do objeto, neutraliza-se o “protesto”. No momento em que a arte é tomada como um “reflexo operacional”, caso de grande parte do que está na 56.ª Bienal de Veneza, mesmo a mais rica e sedutora exposição só pode perder a sua alma.

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