GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

32ª Bienal de São Paulo foca na ecologia e dá voz a minorias

Edição, até 11 de dezembro, tem o mérito de assumir riscos de forma elegante e isenta de posturas panfletárias

Daniela Bousso, Especial para O Estado de S. Paulo

26 Outubro 2016 | 05h00

O curador Jochen Volz afirmou: “A arte sempre se alimentou da incerteza; o trabalho desta bienal procurou gerar um lugar de escuta. América Latina, África e Hemisfério Sul – mais do que o Norte – transformam a mostra em plataforma experimental para articular questões que promovem a diversidade, o pensamento democrático e a educação”.

O incômodo intencional criado pela 32.ª Bienal acentua-se na sobriedade de sua expografia: o design privilegia a fruição da arquitetura de Niemeyer e desloca o olhar do espectador para a paisagem do Parque do Ibirapuera. Isto potencializa o enunciado ecológico e revela o diálogo entre curadoria e arquiteto, no minucioso cuidado para a finalidade da exposição.

A proposta da mostra é imersiva e pautada por visão monocórdia da arte hoje. Se de um lado certas obras – individualmente – podem dar a impressão da falta de uma epísteme plural, de outro não falta potência ao conjunto das obras, o qual descarta o que se vê no mercado da arte e reverbera a vibração dos nossos tempos. Ao repetir uma mesma sintaxe, a mostra imprime cadência e tonalidade graves à questões atuais.

Isto demonstra sintonia com a realidade; já não se pode esperar que a arte seja apenas linguagem em estado de fervura, o que alguns traduzem por poética. Talvez seja esta a razão de certas críticas à 32.ª Bienal. Mas não se pode minimizar o esforço bem sucedido desta realização, ainda mais no Brasil de agora, aonde lidamos com o refluxo de uma crise político econômica.

Ainda que a mostra seja fleumática e evite estéticas que contemplem beleza e euforia, estranhas ao turbilhão da vida hoje, ela consegue criar empatia com o público. A mensagem clara sugere pensarmos outras formas de tocar a nossa vida.

Qual deveria ser o ponto de inflexão da 32.ª Bienal? Seria talvez a presença massiva de grandes nomes da arte contemporânea, algo que pudesse desviar o foco sobre a condição cinzenta e quebrar o silêncio?

A serenidade parece ser o tom adotado para aludir a um mundo em que palavras e polêmicas não aliviam a tensão. A potência – encontrada nas obras de Pierre Huyghe, Leon Hirszman, Gabriel Abrantes, Jonathas de Andrade, Jorge Menna Barreto e Francis Alÿs – é andar na contramão da visão consumista da arte e evitar as posturas eurocêntricas. Resgates de artistas como Frans Krajcberg, Sonia Andrade, Víctor Grippo e Bené Fonteles também pesam a favor da 32.ª Bienal.

No plano institucional, quando Europa e EUA entraram em colapso econômico a partir de 2008, a instância das grandes mostras não foi afetada. A exemplo da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel, preservadas e fomentadas, o incremento de projetos de residências artísticas garantiu circulação e intercâmbio à arte; novos agenciamentos foram acionados para tempos de recursos escassos e este segmento da cultura foi preservado.

Há quem questione as grandes mostras internacionais e o papel de vitrine da arte contemporânea da Bienal de São Paulo hoje em dia. Mas sistema e mercado da arte sinalizam a importância do evento quando inauguram mostras, acolhem curadorias e organizam debates por ocasião de sua abertura, em paridade com o que rola no mundo. A Bienal cresce em importância no Brasil agora que, a despeito da crise, as instituições culturais serão as primeiras a sofrer cortes de recursos.

Neste momento vislumbra-se que a classe média perderá o poder aquisitivo adquirido na última década e como consequência o turismo cultural poderá ficar limitado, circularemos menos pelo mundo da arte. Então a Bienal – novamente – será fundamental para oferecer conteúdo, acesso e atualização em arte contemporânea ao público e meio artístico, cumprindo o fim que Ciccillo Matarazzo lhe designou.

Os próximos curadores da Bienal precisarão criar projetos ágeis, de forma a garantir abordagens artísticas amplas e que as conquistas da arte brasileira continuem a se propagar no plano internacional.

A Fundação Bienal, por sua vez, que lida com parcerias e capta recursos junto à iniciativa privada, precisará de mais apoio. As esferas federal, estaduais e municipais poderiam somar esforços com empresas, que já sinalizam a redução de patrocínios culturais para colocar recursos na ativação de seus negócios.

Os R$ 25 milhões captados para esta edição configuram montante vultoso. No entanto são insuficientes para fomentar a seleção de grandes nomes da arte internacional, se for o caso. A conta é simples: tomem o valor acima e dividam o mesmo por 81 artistas. Teremos o montante de R$ 30 mil, US$ 10 mil por artista, irrelevantes para cobrir custos internacionais de viagens, transporte e seguro de obras, montagem, publicações, honorários da equipe envolvida, comunicação.

Por fim a sociedade civil abastada, que goza do charme social dos eventos da arte, poderia por a mão no bolso e prover também; promover o esforço junto às empresas e ao Estado, somar para oferecer perspectivas de crescimento à Bienal que nos é cara, por ser a nossa maior chancela cultural.

32ª BIENAL DE SÃO PAULO

Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Pq. do Ibirapuera, portão 3; 5576-7600. 3ª, 4ª, 6ª e dom., 9h/19h; 5ª e sáb., 9h/22h. Grátis. Até 11/12

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