Os melhores musicais de 2014

Ubiratan Brasil

02 Dezembro 2014 | 00h18

O ano de 2014 foi extremamente proveitoso para o teatro musical, tanto no Rio como em São Paulo. Tivemos espetáculos que, além de grande qualidade técnica, revelaram interpretações emocionantes, dignas de prêmio como, finalmente, reconhecem agora os críticos de teatro da APCA – depois de vários anos torcendo o nariz para o gênero, identificado erroneamente por alguns como “menor”, os críticos observaram com mais critério e reconheceram as qualidades dos nossos musicais que, quem acompanha há muitos anos como eu, já identificava.
Só espero que não tenha sido uma votação pontual, mais intencionada em obstruir a tentativa de se criar uma categoria específica para teatro musical na APCA, como tentei fazer neste ano, sem sucesso. Que a qualidade dos musicais seja sempre reconhecida em meio a qualquer outra forma teatral.
Agora, faço aqui um pequeno apanhado do que mais me encantou em 2014.
ESPETÁCULO
Jesus Cristo Superstar – o ano começou bem com essa montagem enxuta, mas inspiradíssima de Jorge Takla, conseguindo dar uma roupagem atual a um musical por vezes datado.
Se Eu Fosse Você – inspirado no filme homônimo, mas com um desenvolvimento dramatúrgico totalmente original, conseguiu alto patamar especialmente por conta de sua dupla central, Claudia Netto e Nelson Freitas, inspiradíssimos como o casal que troca de corpo. Destaque ainda para a direção de Alonso Barros, criador também de criativa coreografia com pés de pato
Elis – A Musical – depois de enorme sucesso no Rio, chegou a SP esse emocionante musical, com destaque para a excepcional Laila Garin que soube incorporar corpo e alma da Pimentinha.
O Homem de La Mancha – exemplo do bom e velho musical tradicional, mas com roupagem nova (inspirado na obra do Bispo do Rosário), excelente sacada de Miguel Falabella.
ATRIZ
Laila Garin – presença obrigatória em qualquer lista. Sua interpretação de Elis Regina é histórica e verdadeira aula para qualquer ator ou atriz que se aventure pelos musicais
Claudia Netto – quando parecia que Laila Garin reinaria sozinha na lista, eis que Claudia chega e impõe seu vasto talento, arrasando no vocal e comprovando que decididamente é uma grande comediante.
Sara Sarres – ela já é uma veterana dos musicais , embora ainda jovem. Conseguiu deixar saudades como Anita em West Side Story, mas, como Aldonza, em O Homem de La Mancha, Sara conseguiu o impossível de se superar: seu ecletismo vocal é responsável por momentos sublimes, tornando sua presença em cena sempre aguardada.
Tacy de Campos – a inexperiência teatral foi amplamente compensada pela garra como artista da música: Tacy impressionou pela forma como trouxe Cassia Eller de volta para o palco.
ATOR
Alírio Netto – seu Judas, em Jesus Cristo Superstar, magnetizava a atenção quando soltava agudos poderosos, permitindo que o mais desprezado dos apóstolos despertasse compaixão e simpatia.
Nelson Freitas – trouxe, de forma bem vinda, o humor que o consagrou na televisão para o palco, alternando da cafajestagem à sutileza com muita graça e marcando presença como uma das mais bem vindas aquisições para o teatro musical.
Cleto Baccic – como Sara, nome conhecido e querido dos musicais, mas, ao assumir o papel de O Homem de La Mancha, comprovou ter qualidades cênicas infinitas, criando um personagem ingênuo mas crível, e convencendo a plateia de que ainda se deve ter esperança.
Stepan Nercessian – conquista a plateia como Chacrinha apenas com o bom uso dos detalhes: a entonação da voz, o gesticular dos braços, o mexer nos óculos. Parece fácil, por isso que é excepcional.
DESTAQUES
Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos – que as canções do Chico são imortais todo mundo sabe. O que Charles Möeller e Claudio Botelho mostraram aqui é que elas sempre moraram dentro do coração.
O Grande Circo Místico – um trabalho delicado e apurado, transformando em belo teatro o que era originalmente um balé. Destaque para a interpretação de Fernando Eiras, lírica, desafiante, inesquecível.
Renato Aragão – o eterno Didi enfrentou o palco com garra, encantando os fãs e comprovando que qualquer comparação (como as indevidamente feitas com Roberto Bolaños, o Chaves) não passa de imbecilidade: Renato é nosso Carlitos, mesmo que não queiram os mau humorados.
Vingança – um musical pequeno mas de imensa garra, revelando a paixão explosiva que vagueia nas letras imortais das canções de Lupicínio Rodrigues.