MasterChef Junior: Crianças na panela de pressão
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MasterChef Junior: Crianças na panela de pressão

Com a câmera focada em seu rosto, uma menina de 8 anos engoliu o choro ao ser repreendida pelo apresentador por ter um jeito "caótico" de cozinhar.

Pedro Venceslau

06 Maio 2015 | 17h35

master  chef

É muito difícil para quem tem filho pequeno assistir a série Júnior MasterChef sem ficar desconfortável na poltrona. Exibido pelo Discovery Home & Health, a série é um desdobramento da bem sucedida franquia para adultos com o mesmo nome – e que está na grade de emissoras em vários países, inclusive no Brasil pela Band. A versão “kids” que estou acompanhando é a espanhola. A página da atração na internet diz que a ideia é “fomentar hábitos saudáveis de alimentação” e, para tranquilizar os pais, garante: “Os jurados prometem ser menos duros que não versão adulta, mas não menos exigentes”. Não é bem assim. Com a câmera focada em seu rosto, uma menina de 8 anos engoliu o choro ao ser repreendida pelo apresentador por ter um jeito “caótico” de cozinhar. Nos reality shows de culinária o ponto alto costuma ser o momento em que o apresentador humilha o concorrente.

 Mas e quando é uma criança que está lá, exposta e pressionada? No Junior MasterChef meninos e meninas de 8 à 12 anos cozinham como adultos e lutam contra o relógio para ver quem consegue “o melhor ponto do bife”. Correm para lá e cá com panelas cheias de água fervendo e são cobradas como se estivessem trabalhando na cozinha de um grande restaurante. Em um dos episódios, os pimpolhos foram levados até a Disney e recebidos pelo Mickey. Mas logo receberam a notícia de que não estavam ali para brincar. “Vocês têm 70 minutos para cozinhar mais de 270 pratos”, informou o apresentador.

Dava para ver o desespero nos olhinhos deles. Depois de terminar o último episódio com um nó na garganta, liguei para a psicanalista Quézia Bombonatto, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia, para saber se essa avaliação é muito politicamente correta. “É hora da criança brincar e não de ser exposta precocemente a uma pressão como essa”, disse ela. Quézia lembrou, ainda, que os meninos e meninas que entram em disputas como essa ainda carregam a enorme responsabilidade de não frustrar os pais. No caso do MasterChef Junior espanhol, o prêmio é de 12 mil euros. “Muitas vezes não dá para saber se aquilo é um desejo da criança ou dos pais”, afirma a psicanalista, que se diz “radicalmente contra” a realização de programa nestes moldes. “Se os adultos já saem chorando, imagine as crianças. Elas estão na fase de construção da autoestima”.

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