Chuck Berry entrelaçou para sempre a guitarra e o rock and roll

Chuck Berry entrelaçou para sempre a guitarra e o rock and roll

Heverton Nascimento

19 Março 2017 | 02h36

O riff inicial de ‘Johnny B. Goode’ é um dos ‘grandes’ do instrumento. A introdução de ‘Smells Like teen Spirit’, do Nirvana, que já tem 20 anos, ou o lick de ‘Sweet Child O Mine’, do Guns n Roses, entre inúmeros outros, costumam ser o sonho de consumo da maioria dos jovens que se arriscam em aprender o instrumento. Mas um dia, cedo ou tarde, esses iniciantes chegam na destruidora introdução tocada por Chuck Berry. Simples, certeira, ela sintetiza o que a guitarra se tornaria no rock pelos 60 anos seguintes: é o riff de ‘Johnny B. good’ que transforma a seis-cordas em protagonista do estilo. A pedra fundamental da coisa toda. É aquele slide maroto, seguido pelo double stop – também com slide –, que atrelou a guitarra ao rock e vice-versa, como diria o poeta, de maneira inseparável.

Crédito: chuckberry.com

Veio Jimi Hendrix, veio Eddie Van Halen, Jimmy Page, Ritchie Blackmore e Tony Iommi. Gênios. E, como outros, autores de riffs memoráveis. Mas nenhum que por si só signifique o estilo propriamente dito.

 


 

O diretor Robert Zemeckis acertou em cheio quando criou a icônica cena de ‘De Volta para o Futuro’ em que Marty McFly volta aos anos 1950 e se vê no palco com uma banda de rock. Diante do pedido de bis da plateia McFLy tasca a famosa introdução – empunhando uma Gibson ES-335 vermelha, exatamente o modelo que acompanhou Chuck Berry em toda a carreira – e incendeia o lugar. Assista:

 

 

Mas ainda há duas outras sacadas na passagem do filme que evidenciam a importância do guitarrista Chuck Berry. No solo, McFly praticamente entra em transe e toca horrores – e para horror dos presentes –, notas rápidas, usando distorções, microfonias e técnicas que só seriam conhecidas anos à frente da data em que se passa a cena, brincando que teria sido ‘Johnny B. Goode’ que modernizou o rock.

A outra curiosidade é que na cena um jovem músico vai até o telefone e faz uma ligação para um primo distante, dizendo algo como “Berry, lembra que você tava procurando um som para incendiar? Ouça isso” e levanta o telefone. Talvez o diretor não tenha mirado na questão, mas de novo foi certeiro: Chuck não criou o riff de ‘Johnny B. Goode’. A sequência de notas já existia em Ain’t That Just Like a Woman, de Louis Jordan, de 1946.

Ouça aqui ó:

 

Como todo gênio, Chuck Berry apenas deu o empurrão para a coisa acontecer. Ele tocou o lick com aquele timbre e sabor transgressor com o qual o instrumento se identificou como nenhum outro, colocando o riff no lugar certo, na hora certa e eternamente na história da guitarra ou do rock and roll. Tanto faz.

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