Um réquiem para Lucille, que foi única entre muitas.

Um réquiem para Lucille, que foi única entre muitas.

Rei morto não significa necessariamente rei posto. Dificilmente surgirá um outro bluesman como B.B. King. Ele era de uma outra época, tinha um charme que não existe mais. Lucille, sua guitarra, resistiu a uma união que começou em 1949. Não importa que, ao longo do tempo, Lucille tenha sido várias guitarras. Ela virou uma entidade que, agora, sem B.B., até por respeito a seu mestre, deve sair de cena. Seria muito estranho vê-la nas mãos de outra pessoa. Esta é uma história para quem gosta de B.B. King, de música e de guitarras.

Carlos de Oliveira

16 Maio 2015 | 18h12

Agora que o rei se foi e que quase tudo já foi dito sobre o senhor Riley Ben King, resta uma dúvida: o que será de sua guitarra? O que será de Lucille? Se B.B. era o rei do blues, como de fato era, Lucille era seu cetro. Quem terá o direito (ou a coragem) de empunhá-la novamente? A Lucille que nasceu pobrezinha numa noite de inverno de 1949, numa espelunca em chamas do Arkansas,  foi trocada várias vezes e repaginada um par de outras. Hoje está em silêncio. Não o silêncio obsequioso das punições, mas em silêncio simplesmente.

B.B. Kimg em foto de 1949, com seu violão Gibson L-30, a primeira Lucille.

B.B. King em foto de 1949, com seu violão Gibson L-48.

O jovem B.B. e Lucille, uma história de amor de mais de 60 anos.

O jovem B.B. e a primeira Lucille, um violão Gibson L-30: história de amor de muitas décadas.

A primeira – Lucille foi única entre várias e vale a pena prestar-lhe esta homenagem. Nos Estados Unidos, guitarra e violão são a mesma coisa, a mesma palavra. No Brasil, não. Guitarra é guitarra e violão é violão. A primeira Lucille era um violão. Um Gibson L-30 muito simplezinho, baratinho, de apenas US$ 30, mas o ganha-pão do jovem disc jockey da rádio WDIA, de Memphis, apelidado Beale Street Blues Boy ou Blues Boy King, o B. B. King.


Ela quase virou cinzas depois que dois brigões se agarram num bar do Arkansas, puseram fogo no local e morreram torrados por causa de uma certa Lucille, mulher que disputavam. No palco, o jovem B.B. tocava e arriscou a vida para salvar seu instrumento. “A partir desse momento, passei a chamar minhas guitarras de Lucille”, dizia sempre um B.B. agradecido. “Lucille me tirou das plantações”.

Fase elétrica – Dois anos mais tarde, em 1951, B.B. apareceu com um novo instrumento, desta vez uma guitarra de verdade, não mais um violão eletrificado, também tratada por Lucille. Era uma Fender Squire de captador único, sem tensor no braço.

B.B. King em 1951 com sua Fender Squire. Uma nova guitarra, mas a mesma Lucille.

B.B. King em 1951 com sua Fender Squire. Uma nova guitarra, mas a mesma Lucille.

O tensor é uma haste de metal que corre dentro do braço do instrumento. Ajustável como se fosse um longo parafuso, ele tem a função de corrigir eventuais (e naturais) empenamentos do braço. B.B. disse que gostava muito de sua nova Lucille, “muito embora seu braço vivesse entortando”.

B.B. e sua nova Lucille, uma Gibson Les Paul 1952.

B.B. e sua nova Lucille, uma Gibson Les Paul 1952.

De calças curtas, tocando uma Gibson E-5.

De calças curtas, tocando a Gibson E-5.

Elegante, com uma bela Gibson 175.

Elegante, com uma bela Gibson 175.

Les Paul – Entre 1952 e 1953, B.B. passou a tocar com um novo produto, uma guitarra recém-lançada no mercado, uma Gibson modelo Les Paul, que anos mais tarde se transformaria no objeto de desejo de todo guitarrista.

Era uma gold top, como todas as Les Paul da época, que B.B. exibia junto com sua orquestra. Uma nova guitarra, porém a mesma Lucille.

Tocou também com uma Gibson 175 e com uma E5. Começava o casamento de B.B. com a fábrica Gibson. Antes, porém, ele chegou a tocar com uma Fender Broadcaster, com uma Fender Stratocaster e até com uma Grestch.

Em 1959, B.B. King e sua nova Lucille: uma Gibson ES-330.

Em 1959, B.B. King e uma nova Lucille: a Gibson ES-330.

Eletric Spanish – B.B. sempre foi um homem grande e, talvez por isso, buscou ter um instrumento maior que uma Les Paul, que era sólida, bem pesada, mas pouco volumosa. Por isso, em 1959, passou a tocar com um outro modelo da Gibson igualmente recém-lançado, a ES-330, uma guitarra semi-acústica, contemporânea das atuais ES-335, 345 e 355, esta última a mais famosa das Lucille. Em tempo, as iniciais ES significam Eletric Spanish.

A produção das 330 foi encerrada nos anos 70. Elas são “primas” das Epiphone Casino, utilizadas por John lennon, George Harrison e Paul McCartney, no final dos anos 60.

80 anos – Com sua imagem sempre associada aos modelos ES da Gibson, em 1980 a empresa lançou a guitarra B.B. King Custom, a primeira com sua assinatura. Em 1988, a Gibson apresentou oficialmente o modelo Lucille, em linha até hoje.

Em 2005, para celebrar os 80 anos do rei do blues, a Gibson lançou uma série limitada batizada de 80th Birthday B. B. King Lucille, com apenas 80 exemplares produzidos. B.B. recebeu de presente o primeiro protótipo e tocou com esse instrumento até 2009, quando a guitarra foi roubada. Meses depois, ela reapareceu em uma loja de penhores de Las Vegas e foi  devolvida a seu dono de direito.

Reencontro com Lucille: Dahl devolve a B.B. King a guitarra que lhe havia sido roubada meses antes.

Reencontro com Lucille: Dahl devolve a B.B. King a guitarra que lhe havia sido roubada meses antes.

Reencontro – Vale contar essa história. Era outubro de 2009 e Eric Dahl, um colecionador de guitarras natural de Las Vegas, havia deixado seu cartão em uma loja de penhores da cidade, com o pedido de que fosse avisado caso alguma raridade aparecesse. Um belo dia, dois meses depois, ele recebeu um telefonema. A loja acabara de receber uma Gibson ES-345 B.B. King Lucille.

Dahl foi até lá, examinou o instrumento e ficou intrigado. A guitarra estava sem seu estojo original, não tinha nenhum documento, aparentava ter sido bastante usada, com marcas na pintura preta. Ao checar a parte de trás do instrumento, em busca do seu número de série, Dahl encontrou a inscrição Prototype 1. Isso indicava que a guitarra havia sido aprovada por B.B. King em pessoa.  Por que estaria naquela loja?

Depois de semanas de pesquisa, Dahl chegou até Pat Foley, diretor do setor que cuida das relações da Gibson com artistas, e descobriu que aquela era a guitarra que havia sido roubada de B.B. King meses antes. Devolvê-la foi o passo seguinte.

Uma Lucille de presente ao papa João Paulo 2º.

Uma Lucille de presente ao papa João Paulo 2º.

Sempre juntos – “Lucilles” foram dadas por B.B. ao papa João Paulo 2º e ao ex-presidente George Bush, o pai. A guitarra que virou marca registrada de um artista e um ícone da música corre o risco de sair de cena, a não ser que algum novo rei do blues seja descoberto e entronizado. Difícil. Até lá, Lucille terá um bom tempo de descanso e talvez nem volte mais aos palco. Seria até bom que isso acontecesse. Lucille e B.B. King formam uma única imagem. Não podem existir separadamente.

 

 

 

 

 

 

 

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