(Sittin’ On) The Dock of the Bay, maior legado de Otis Redding, completa 50 anos.

Otis Redding, rei do soul, não teve tempo de ver o sucesso que sua (Sittin' On) The Dock of the Bay faria. Ele morreu em dezembro de 1967 e sua canção mais celebrada foi lançada postumamente, no ano seguinte. O soul continua à espera de alguém que o substitua.

Carlos de Oliveira

22 Março 2018 | 21h32

Se Aretha Franklin foi sagrada rainha do soul, com toda justiça Otis Redding seria seu rei. Aretha ainda está na ativa, embora mais comedida. Redding foi colhido prematuramente pela morte aos 26 anos. Um acidente aéreo levou o rei do soul no dia 10 de dezembro de 1967, em Medison, Wisconsin. Já lá se vão quase 51 anos e seu trono continua vazio. Em compensação,deixou um legado raro, uma canção que marcou sua genialidade para sempre: (Sittin’g On) The Dock of the Bay, que ao longo deste ano comemora meio século.

A música foi composta por Redding e pelo guitarrista Steve Cropper, em 1967. Lançada postumamente um ano depois, tornou-se um sucesso instantâneo, chegando ao terceiro lugar nas paradas britânicas e uma espécie de hino permanente nos Estados Unidos. Um dado de curiosidade: a letra de ‘Docks of the Bay’ foi composta no barco que Redding usava como moradia, alugado em Sausalito, Califórnia.

Ouça (Sittin’ On) The Dock of the Bay: 50 anos de sucesso.

Na igreja – Otis nasceu em Dawson, Geórgia, e logo sua família mudou-se para Tindal Heights Housing Project, em Macon, cidade natal de outra lenda da música, Little Richard, sua primeira influência. Como muitos outros cantores negros do sul dos Estados Unidos, Otis começou a cantar e a moldar seu estilo no coro de uma igreja, a Vineville Baptist Church, onde seu pai pregava aos domingos.

Shotgun house – As doenças recorrentes de seu pai somadas às dificuldades financeiras do dia-a-dia obrigaram a família a se mudar para uma shotgun house (habitação modesta e tão pequena que, diziam, se alguém desse um tiro na porta, todos os que estavam dentro morreriam). Como se isso não bastasse, um incêndio transformou a casinha dos Redding em cinzas.

Para ajudar na sobrevivência, o jovem Otis deixou os estudos e foi trabalhar com os Upsetters, a antiga banda de Little Richard, ganhando US$ 25 por semana. Gladys Williams, músico local que comandava um concurso dominical de calouros, chamou-o para tentar a sorte e Otis foi o primeiro colocado durante quatro meses seguidos, sendo impedido de se apresentar novamente. Para quem queria ser um grande cantor, um concurso local não era mesmo lá grande coisa.

The Shooters – Em 1959, Otis passou a cantar no Grand Duke Club, ainda em Macon. No ano seguinte, deixou a cidade e foi trabalhar de motorista da van que transportava Johnny Jenkins e os Pinetoppers em excursões pelo sul do país. Sempre que podia, cantava. Agradou e passou a ser o crooner da banda. Mas ainda era pouco. Nesse mesmo ano conseguiu fazer sua primeira gravação (Fat Gal e Shout Bamalama) já com sua banda, a Otis and The Shooters.

Em 1962, aproveitando um intervalo de gravação da banda de Johnny Jenkins, Otis gravou These Arms of Mine, escrita por ele e que se tornou um sucesso nas paradas de rithym and blues. O sucesso relativo levou Otis a gravar em Memphis com Booker T and The MGs ou com a banda The Bar-Kays, o que lhe abriu as portas para apresentações nos Estados Unidos e na Europa.

Respect – São dessa época (de 1965 a 1967), músicas como That’s What My Heart Needs, Pain In My Heart, Chained and Bound e Mr. Pitiful. Ainda em 1965, Otis compõe e grava Respect, que, tempos depois, subiria ao Top Ten americano em interpretação antológica de Aretha Franklin.

Ouça Respect, com Aretha Franklin, em versão original:

 Otis deixou um imenso rastro de sucessos, entre eles Try a Little Tenderness.  A versão que se segue foi gravada em Cleveland, Ohio, um dia antes de sua morte, em dezembro de 1967:

Ouça a mesma canção com a banda norte-americana The Three Dog Night, numa versão um pouco mais bluesy:

Ouça também Otis Redding no Festival de Monterey, em junho de 1967, na Califórnia, pouco antes de sua morte:

Monterey – Em 1967, Otis chega ao auge do sucesso e é o único artista da soul music convidado a participar, em junho, do Festival de Monterey, na Califórnia, ao lado de nomes como Jimi Hendrix e The Who, entre outros. Em dezembro desse mesmo ano, justamente quando sua carreira começou a ser reconhecida pelas plateias de música pop e não apenas de rithym and blues, Otis e os músicos da Bar-Kays morrem em um acidente aéreo. O avião em que viajavam teve uma pane e caiu nas águas geladas do lago Monona. Desde então, a soul music está à procura de um novo rei. Ainda não encontrou. Talvez nem encontre tão cedo.

De qualquer forma, Otis continua sentado na doca da baía de San Francisco, descansando seus ossos e vendo o tempo passar. Ouve as ondas e os sons de gaivotas. Sua música será eterna.