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Se as paredes e os microfones de Abbey Road falassem…

Carlos de Oliveira

06 janeiro 2016 | 11:34

Aos 67 anos, o produtor, engenheiro de som e músico inglês Alan Parsons conta histórias vividas por ele nos anos 60 e 70 nos estúdios de Abbey Road, em Londres. Ele fala sobretudo sobre gravações dos Beatles. Cita os Hollies e um certo Reginald Kenneth Dwight, que depois se transformaria em Elton John. Nos anos 70 Parsons formou sua própria banda e fez sucesso com a Alan Parsons Project.

O processo de realização de um disco é fascinante. Por trás de um vinil, de um CD ou de qualquer outra mídia há muito trabalho e histórias. Principalmente histórias. Alan Parsons conhece muitas delas. Afinal, ele viveu e continua vivendo em um dos templos mais sagrados da música, não importa se do rock, do pop ou do clássico. Em Abbey Road grava-se de tudo e tudo tem uma história. Parsons vai nos contar algumas delas.

Alan Parsons, produtor, engenheiro de som e músico: muitas histórias nos bastidores de Abbey Road.

Alan Parsons: muitas histórias nos bastidores de Abbey Road.

Obra-prima – Como ninguém é obrigado a conhecer Alan Parsons, vamos às apresentações. Hoje com 67 anos, Parsons é produtor musical e músico. Nos anos 60 e 70 trabalhou como engenheiro de som nos estúdios de Abbey Road, participando da elaboração de álbuns dos Beatles, entre outros. Mais tarde, celebrizou-se ao produzir  o álbum The Dark Side of the Moon, a obra-prima do Pink Floyd. Nos anos 70 criou sua própria banda, a Alan Parsons Project, e fez sucesso. Muitas das músicas do grupo foram tocadas com insistência nas emissoras de rádio brasileiras.

Ao longo do tempo que passou em Abbey Road, Parsons viu e ouviu muitas coisas. Tanta coisa que resolveu contá-las. O estúdio, então, promoveu uma série de encontros com o público, durante os quais Parsons falou, rememorou passagens e contou pequenos “segredos” existentes por trás de algumas músicas. Centrou suas palestras preferencialmente nos Beatles, que ele conheceu bem de perto.

Jardim do polvo – Ele lembra que Ringo Starr compôs apenas duas músicas: Don’t Pass me By (no Álbum Branco, de 1968) e Octopus’s Garden (no álbum Abbey Road, de 1969). Apesar dos arranjos geniais, nenhuma delas foi sucesso. A primeira era uma musiquinha boba de dor de cotovelo. A segunda, mais graciosa, parece uma historinha para crianças. Sobre esta última Parsons tem recordações.

Ele conta que a inspiração veio a Ringo durante um período de férias que passou a bordo do barco do grande ator britânico Peter Sellers. Eles navegavam pelo Mediterrâneo, mais exatamente pela costa da Sardenha. Foi quando o capitão do barco disse a Ringo que os polvos são animais muito inteligentes. Disse que no fundo do mar, junto aos corais, eles colhem pedrinhas e objetos brilhantes para construir jardins. Nascia ali a ideia para uma música, graças a um anônimo capitão do barco de Peter Sellers.Quem poderia imaginar?

Canudo – Além dos vocais e do belo solo se guitarra feito por George Harrison, Octopus’s Garden tem alguns efeitos especiais, uma espécie de ambientação submarina que remete ao jardim construído por um polvo e onde Ringo diz querer morar. “Lembro-me perfeitamente de Ringo soprando um canudo num copo cheio de água para fazer bolhas e criar o som que se ouve ao fundo na música”, revela Parsons.

Ouça Octopus’s Garden nesta animação do jogo The Beatles Rock Band:

Um certo Reginald – Uma outra história. Esta, curta, mas reveladora. Graham Nash já havia deixado a Inglaterra e os Hollies para se juntar, nos Estados Unidos, a Stephen Stills e David Crosby e formar o super trio Crosby, Stills & Nash. Os Hollies, porém, continuavam na ativa e estavam prontos para gravar aquele que foi um de seus maiores sucessos: He Ain’t Heavy, He’s My Brother, uma música de 1969.

Nash conseguia alcançar notas muito altas, uma das principais características dos vocais dos Hollies. Para substitui-lo, juntou-se ao grupo Terry Silvester, um cantor com a mesma extensão vocal de Nash. A gravação ficou perfeita e a música ainda é um sucesso. No piano, um obscuro músico chamado Reginald Kenneth Dwight, que poucos anos depois passaria a ser conhecido como Elton John.

Ouça He Ain’t Heavy, He’s My Brother, com os Hollies. No clip, Elton John não aparece ao piano, embora tenha tocado o instrumento na gravação original, nos estúdios de Abbey Road:

Sua majestade – Enquanto montavam as faixas que compõem o medley que aparece no lado B da versão em vinil do álbum Abbey Road, a canção Her Majesty foi colocada originalmente entre Mean Mister Mustard e Polythene Pam. Porém Paul McCartney não gostou da sequência e mandou o engenheiro de som John Kurlander retirá-la daquela posição no disco.

Sem saber exatamente o que fazer, Kurlander, que tinha ordens expressas de nunca jogar fora nada que fosse produzido por um beatle, colocou Her Majesty, com apenas 20 segundos de duração, depois do encerramento da faixa The End.  A música foi mantida no acetato que, posteriormente, daria origem à versão final do disco. Ao ouvir esse acetato, Paul gostou do resultado e Her Majesty permanece lá no fim de Abbey Road para sempre

Ouça na animação o medley do álbum Abbey Road. No final, depois de The End, está a faixa Her Majesty, de apenas 20 segundos:

A bigorna de Maxwell – John Lennon odiava a música Maxwell Silver Hammer, mas Paul insistiu em mantê-la em Abbey Road. Insistiu tanto, que irritou os demais beatles. Irredutível, manteve a música e exigiu que Mal Evans, o faz tudo da banda, providenciasse um martelo e uma bigorna para compor a percussão. As marteladas podem ser ouvidas ao longo da canção. Puxando pela memória, Alan Parsons afirma que o “bigornista” foi Ringo Starr. Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles, diz que foi Evans. É mais provável que a bigorna tenha sido “tocada” por Ringo, que tinha noção de ritmo e de tempo. Mal Evans era apenas um gigante gentil.  Seja como for, um dia, quem sabe, esse mistério venha à luz.

Ouça Maxwell Silver Hammer:

Agora, para encerrar, uma ajuda para quem ainda estiver se perguntando quem é esse tal de Alan Parsons. Muito provavelmente os leitores já tenham ouvido a música quem vem a seguir.

Ouçam o Alan Parsons Project tocando Eye in the Sky, em concerto na Plaza Mayor, em Madri:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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