Sargento Pimenta existiu de verdade, era um major-general e nunca teve uma banda.

Sargento Pimenta existiu de verdade, era um major-general e nunca teve uma banda.

Está tudo pronto para as comemorações dos 50 anos do lançamento do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", a obra-prima dos Beatles. Dia 26 sai uma super caixa com uma reedição de luxo da obra. E há mais uma novidade: quem poderia imaginar que a imagem do sargento Pimenta que acompanha o encarte do disco é a de um soldado real, a do major-general James Melvin Babington, que lutou na Guerra dos Boers?

Carlos de Oliveira

15 Maio 2017 | 10h42

Reza uma das muitas lendas que cercam a história do rock que por volta de novembro de 1966, logo após o lançamento do álbum Revolver, durante um voo de regresso a Londres, Paul McCartney imaginou que os Beatles poderiam criar um novo disco, mas com uma outra identidade, como se fossem um outro grupo, um alter ego com ares de uma banda militar da era Eduardiana. Nascia a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta.

O major-general James Melvin Babington, cuja imagem foi usada para a construção do personagem Sgt. Pepper. Babington foi um lanceiro da rainha e lutou na Guerra dos Boers.

O personagem Sgt. Pepper, que deu nome ao mais icônico álbum dos Beatles.

Que o álbum completa agora 50 anos, que uma super edição de luxo da obra-prima dos Beatles já está em fase de pré-venda, que muitos artigos foram e ainda serão escritos todos já sabem. O que talvez poucos saibam é que o sargento Pimenta existiu. Existiu de verdade e não apenas no devaneio musical de McCartney.


Novidades – No dia 1º de junho de 1967, quando Sgt. Pepper’s foi oficialmente foi lançado, uma série de novidades acompanhou mais essa ousadia dos Beatles. Além da capa icônica, multifacetada, o álbum tinha quatro faces, numa forma de “envelope”. Suas 13 canções, marcadas por recursos técnicos avançadíssimos para a época, pela primeira vez vieram acompanhadas das letras. Críticos desmancharam-se em teorias, elogios e estranhamentos.

Com uniformes de cetim colorido, a foto dos quatro beatles ocupava toda a página dupla central do álbum.

Em uniformes hippies/militares em cetim colorido, uma imensa foto dos quatro músicos tomava todo o espaço central das faces internas do álbum. De brinde, e para o deleite dos beatlemaníacos, um encarte com algumas imagens: um bigode postiço, duas divisas vermelhas e douradas de sargento, a foto dos quatro beatles, um button redondo com os dizeres Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e, o mais intrigante, duas imagens de um mesmo militar garboso identificado como Sgt. Pepper em letras manuscritas.

No alto, o esboço da capa do álbum Sgt. Pepper’s feito por Paul McCartney. Acima, a versão final materializada por Peter Blake e Jann Haworth.

Esboço – Mas quem, afinal, era aquele tal sargento Pimenta? De onde os artistas de pop art Peter Blake e Jann Haworth, realizadores do projeto, tiraram aquela figura? Sabe-se que o conceito da capa, com as fotografias de todos aqueles personagens, foi materializado a partir de um esboço feito por Paul McCartney. Esse esboço acabou em posse de John Lennon e agora está sendo leiloado na Julien’s Auctions, em Nova York.

Mas e o o tal sargento Pimenta? Quem era aquele militar?

Pois agora o mistério foi desvendado. A imagem no encarte do álbum dos Beatles foi escolhida aleatoriamente entre vários cartões que retratam personagens da história militar britânica. De repente, os Beatles tinham o seu sargento Pimenta e esse sargento nem sargento era. Explica-se:

Lanceiro – A imagem escolhida, e depois tratada artísticamente com as divisas de sargento, era do major-general James Melvin Babington, que serviu no 16th Queen’s Lancers (Lanceiros da Rainha) na segunda Guerra dos Boers, entre 1899 e 1902, e na Primeira Brigada de Cavalaria, na África do Sul.

A identidade do sargento Pimenta, ou major-general James Melvin Babington, foi agora reforçada pelo autor Bruce Spizer em seu novo livro The Beatles and Sgt. Pepper: A Fans’ Perspective. Na semana passada, no podcast Things We Said Today, especializado em Beatles, Spizer teve a grandeza de creditar a Frank Daniels, que usa o pseudônimo de Max Gretinski, a autoria pioneira de um ensaio sobre a identidade do major-general Babington, cujo nome e imagem constam do livro Celebridades do Exército (britânico).

Ouça Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a música que abre o álbum de mesmo nome, lançado em 1º de junho de 1967. Nada mais atual:

O que mais? – Meio século depois de seu lançamento e a poucos dias de ver reeditada sua obra máxima, o que mais nos reservarão os Beatles para os próximos 50 anos? Certa vez John Lennon disse que I’m the Walrus era uma música que seria atual por pelo menos cem anos. Parece que ele estava certo.

Vejam o exemplo a seguir:

Com supervisão de George Martin, o “quinto beatle”, ouça o ator canadense Jim Carrey cantando com estilo e personalidade sua versão de I’m the Walrus, música que John Lennon disse que continuará atual pelos próximos cem anos: