Apenas algumas linhas em memória de Miles

Apenas algumas linhas em memória de Miles

Difícil escapar de algumas efemérides. O dia 28 de setembro é triste para o jazz e para a música. Há 23 anos morria Miles Davis, o Senhor Cool, o genial viajante pelos improvisos do bebop, do fusion, do acid jazz e mais, muito mais. Sua biografia já foi escrita e reescrita. Não precisa de outra. Miles fala por si, por sua música. Mesmo assim, vale lembrar algumas poucas passagens de sua vida, como uma certa birra de seu pai ranheta, a quem devemos a genialidade do filho. Só umas rápidas pinceladas, umas poucas linhas em homenagem, à memória de Miles.

Carlos de Oliveira

26 Setembro 2014 | 08h46

Miles, um nome ligado à vanguarda do jazz, morto há 23 anos.

Não fosse uma ranhetice doméstica das mais bobas e um importante capítulo da história do jazz jamais teria sido escrito. O ano era 1939 e a cidade, East St. Louis, no estado de Illinois, EUA. Cleota Mae era uma boa pianista e gostava de tocar blues. Com um piano em casa, nada mais natural que seu filho seguisse o mesmo caminho e se tornasse um pianista, quem sabe até um concertista. Afinal, o garoto já tinha 13 anos e era tempo de definições. O pai, um dentista bem instalado, era do contra. Sabia que Cleota detestava o som de instrumentos de sopro e, só para irritá-la, deu um trompete de presente ao filho. Nesse momento, a música perdia um pianista de sucesso discutível. Em compensação, ganhava o mestre do cool, uma lenda, Miles Dewey Davis III, morto exatamente há 23 anos, no dia 28 de setembro de 1991, com 65 anos.

Vanguarda – Do bebop ao cool jazz e do modal jazz ao hard bop, os caminhos musicais de Miles Davis passaram pelo third stream, pelo jazz fusion e pelo acid jazz, gêneros que ele não apenas dominou, mas foi responsável pela disseminação, numa espécie de escola para os novos trompetistas. No jazz, Miles e vanguarda são sinônimos. Mas nem sempre foi assim, especialmente no começo.

Miles aos 13 anos: música e reguadas nos dedos.

Mamãe resignada e de trompete em mãos, o jovem Miles ensaiava algumas notas. Mas foi Elwood Buchanan quem lhe deu as primeiras noções técnicas sobre o instrumento. Buchanan tinha uma didática um tanto peculiar, mas, nem por isso, ineficiente. Tal didática iria marcar o estilo de Miles até o fim da vida. O professor era um purista e só admitia o som limpo, isto é, sem floreiros e, acima de tudo, sem vibrato (técnica que permite ao músico “tremer” determinada nota). Toda vez que o adolescente Miles tentava “tremer”, era punido. E fisicamente.

“Não trema” – Dono de uma longa régua, Buch, como era conhecido, golpeava as juntas dos dedos de Miles, sempre que percebia um vibrato na melodia. E dizia: “Pare de tremer essa nota. Você já vai tremer bastante quando ficar velho.” Anos depois, Miles lhe agradeceria: “Prefiro um som agradável sem atitude, como uma voz agradável sem muito trêmulo e sem muitas linhas de baixo. No meio-termo. Se eu não consigo esse som, eu não consigo tocar nada.”

Menino estudioso, oriundo de uma família de classe média, Miles participava de bandas amadoras, mas só nos horários de folga escolar. Aos poucos foi se profissionalizando, mas sua mãe queria que ele se formasse primeiro. Essa exigência o impediu de tocar na banda de Billy Eckstine, com nomes como os de  Dizzy Gillespie e Charlie Parker. Mas eles se cruzariam mais tarde, em Nova York.

Miles na maturidade: do cool ao eletrônico.

Reverência – A biografia de Miles é extensa, rica e, por vezes, sombria. Caiu diante da heroína, perdeu credibilidade por isso, mas livrou-se dela depois de retornar a East St. Louis e trancar-se por duas semanas no consultório de seu pai, Miles Davis II. Lá ele exorcizou seu vício e voltou para a música.

A música fez de Miles Davis um frasista. Tinha boas tiradas, embora algumas delas fossem bastante cáusticas, como seu som. Eis algumas:

“Não toque o que está lá, e sim o que não está.”

“Uma lenda é um homem muito velho com uma bengala, que é conhecido pelo que fez. Eu ainda estou fazendo.”

“Eu sei o que eu fiz para a música, mas não me chame de lenda. Apenas me chame de Miles Davis.”

“Jazz é como o blues, mas com um pouco de heroína.”

Autor de frases caústicas como o seu som

Kind of Blue – Miles também gravou o álbum mais vendido da história do jazz, segundo muitos críticos. Kind of Blue foi lançado em 1959 e até hoje ganha reedições, como prova de indiscutível perenidade. Dele participaram Julian “Cannonball” Adderley, Paul Chambers, James Cobb, John Coltrane Bill Evans e  Wynton Kelly. Ouça o álbum:Como a biografia de Miles é mais do que conhecida, não faria sentido prosseguir nela. O objetivo do texto de hoje é apenas reverenciar a memória de um dos maiores mestres do jazz, 23 anos depois de sua morte, em Santa Mônica, na Califórnia. Difícil, porém, não citar que pelo seu primeiro quinteto, em 1955, passaram músicos como John Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). Já nos anos 60, seu segundo quinteto reunia Wayne Shorter (sax),  Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria).

Quem ousa? – Houve também o Miles das fusões, um outro Miles ácido, o que flertou com o rock, com o pop, o Miles que não deu as costas aos sintetizadores nem às guitarras de John McLaughlin e de Robben Ford. Compositor e band leader, deixou sua música em aberto, à espera de quem ouse tanto ou mais do que ele. A ver quem aceita seu desafio.

 

Wayne Shorter, à espera de seu documentário

O saxofonista Wayne Shorter, que tocou com Miles, à espera de documentário sobre sua vida.

Ainda à espera de financiamento que permita sua conclusão, o documentário Zero Gravity, sobre o saxofonista Wayne Shorter, ganha um novo alento. Dorsay Alavi, diretor do projeto, marcou para este dia 28 de setembro, na Califórnia, como parte das homenagens a Miles Davis,um evento durante o qual pretende passar o chapéu e arrecadar mais fundos para sua obra. O próprio Shorter,  hoje a caminho dos 81 anos, será o anfitrião, tocando ao lado de Herbie Hancock, Quincy Jones, Herp Albert e Marcus Miller. Entre as vocalistas, Dee Dee Bridgewater, Lalah Hathaway, Corinne Bailey Rae, Lizz Wright e Esperanza Spalding.