Os desleixados Beatles e suas letras horrorosas

Os desleixados Beatles e suas letras horrorosas

Os Beatles escreviam mal. Muito mal. Tinham letras horrorosas, quase incompreensíveis. Não, 'Sonoridades' não está avaliando as canções da banda, mas as letras de John, George e Paul, que estavam mais para garranchos do que para qualquer outra coisa. Caligrafia não era o forte deles. Mas quem se importa?

Carlos de Oliveira

27 Janeiro 2016 | 12h12

Ideias geniais expressas em garranchos medonhos. Assim foi a produção musical dos Beatles. John, George e Paul podiam ser bons músicos, mas suas letras…só garatujas. Por isso, a história desta semana é cheia de grafismos. Trata-se de letras de músicas dos Beatles escritas pelas mãos dos Beatles. Muitos poderão dizer que mais vale o conteúdo e que a forma é só um detalhe. Pode ser. Mas como essas letras ficaram para a posteridade, por que não exibi-las?

Pode-se começar por  Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, considerado o álbum mais expressivo da banda.  Os quatro rapazes vinham de duas experiências avançadas para a época: Rubber Soul e Revolver. Não apenas os Beatles, mas seus fãs esperavam que o próximo disco fosse algo ainda mais instigante, ousado, perturbador.

Sargento Pimenta – A ideia do sargento Pimenta nasceu no dia 19 de novembro de 1966, durante um voo que Paul McCartney fazia de Nairóbi, no Quênia, a Londres. O beatle estava de férias. Com um disfarce improvisado, passou incógnito por Paris e foi à África, onde participou de um safári supostamente fotográfico. Gostou de não ter sido reconhecido e pôs-se a pensar.

Imaginou que o próximo álbum deveria ser tocado e cantado por uma espécie de alter ego do grupo: a Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. Paul, claro, seria o sargento, já que escreveu (com letra desleixada, como se vê abaixo), os versos dessa e da maioria das demais canções do disco.

A letra de Paul McCartney nos versos de Sgt. Pepper, que abre o lábum de mesmo nome, lançado em 1967.

A letra horrorosa de Paul McCartney nos versos de Sgt. Pepper, música que abre o álbum de 1967.

O Pior – Dizem que George Harrison era um compositor menor e que suas músicas estavam aquém das criações de Lennon e McCartney. Muito discutível isso tudo. George foi autor de peças de rara beleza e de sensibilidade quase religiosa. Porém, no que se refere à caligrafia, a dele era a pior de todas. Basta ver o manuscrito quase indecifrável de Here Comes the Sun (confira abaixo).

A letra de Here Comes the Sun, escrita por George Harrison na mansão de Friar Park, em 1969

A letra de Here Comes the Sun, escrita por George Harrison na mansão de Friar Park, em 1969.

A música é bela, uma espécie de hino ao otimismo. Agastado pelas disputas mundanas em torno do futuro da Apple e dos próprio Beatles, George resolveu sair de circulação por uns tempos. Em Friar Park, depois de um inverno rigoroso, saiu para caminhar pelos jardins de sua propriedade neogótica. Com um violão emprestado por Eric Clapton saudou os primeiros raios de sol com uma nova música. “Foi uma libertação tão grande poder simplesmente estar ao sol”, comentou o beatle sobre sua composição.

A título de curiosidade, Eric Clapton teve presença marcante na vida pessoal e musical de Harrison. Fez o solo de guitarra em While My Guitar Gently Weeps e “roubou” a esposa do beatle, a modelo Patty Boyd, musa inspiradora de Something

 

Amor declarado: Paul e John rivalizavam na produção de músicas

Amor declarado: Paul e John rivalizavam na produção de músicas.

John versus Paul – Paul e John nunca esconderam de ninguém que competiam. Em suas letras, um espetava o outro, provocações que só levavam a novas músicas cada vez mais elaboradas.

Quando os Beatles se separaram e o sonho acabou, John, num de seus álbuns solo disse que a única coisa boa que Paul havia feito foi Yesterday. Certamente um exagero. Mais um exagero de um Lennon que gostava de ser polêmico, até antipático.

Seja como for, Yesterday talvez seja uma das músicas mais conhecidas da banda, gravada e regravada por vários artistas. Ao falar sobre a canção, Paul disse que ela veio totalmente pronta à sua cabeça.

Foi uma criação tão fácil que, preocupado, passou quase um mês pesquisando se não havia nada parecido tocando nas rádios. Queria saber se não cometera um plágio involuntário.

A letra de Yesterday, que Paul McCartney concluiu durante curtas férias em Portugal.

A letra de Yesterday, que Paul McCartney concluiu durante curtas férias em Portugal.

Ovos mexidos – Paul tinha apenas a melodia. A letra definitiva de Yesterday veio mais tarde, durante curtas férias em Portugal, após as filmagens de Help!, em 1965. No início a música chama-se Scrambled Eggs. E ele cantava: Scrambled Eggs/Oh you’ve got such lovely legs (algo como Ovos Mexidos/Você tem pernas adoráveis).

Vale observar que a letra de Paul em Yesterday não está lá tão ruim, demonstrando segurança das ideias.

Mais caprichoso – É fato, porém, que dos três beatles escritores, o menos descuidado com a letra era John. Pelo menos é o que se depreende do manuscrito de All You Need is Love, de 1967.

O texto limpo e sem rabiscos mostra que o beatle tinha uma ideia bastante clara sobre o que queria expressar na canção. Mesmo assim, não se trata de nenhum modelo de letra capaz de deixar um professor orgulhoso. Mas quem se importa?

Texto limpo: o manuscrito de All You Need is Love, de John Lennon.

Texto limpo: o manuscrito de All You Need is Love, de John Lennon.

Caricaturas – Grafismos sempre estiveram associados aos Beatles, vale lembrar a animação Submarino Amarelo. Mais recentemente, Paul e Ringo participaram do lançamento do jogo Beatles Rock Band. Quando criança, John criava histórias em quadrinhos. Na fase áurea da banda, foi proposto que Paul fizesse uma caricatura de George e que John fizesse uma de Ringo. George desenhou Paul e Ringo desenhou John.

O resultado é este que se vê a seguir:

Paul desenhou um George sisudo. John fez um Ringo obviamente narigudo. George fez um Paul bonitinho e Ringo fez um John de topete e costeleta.

Paul desenhou um George sisudo. John fez um Ringo obviamente narigudo. George fez um Paul bonitinho e Ringo fez um John de topete e costeleta.

Histórias sobre os Beatles não se encerram por aqui. Por certo, muitas outras serão contadas. Por ora, apenas uma rápida conclusão: apesar da qualidade de suas músicas, os Beatles tinham letras que mais pareciam hieróglifos. É provável que algum grafologista ou outro ista qualquer se aventure a analisar a personalidade de cada um deles, a partir de suas letras. Mas essa seria apenas uma aventura. E quem se importaria?